APEX PREDATOR

         A fome aperta cada vez mais, e a noite cerca-me com os seus odores característicos, aguçando ainda mais o meu apetite, por si só de uma voracidade implacável. Sou noctívago por natureza e é pois, quando o Sol se põe por trás da linha do horizonte, que abandono o meu refúgio e parto em busca de alimento. Domino por completo toda uma vasta área e situo-me no topo da cadeia alimentar. Não existe nenhum outro predador num raio de vários quilómetros. Não existem senão presas indefesas à espera de serem caçadas… por mim.

         A noite chega, silenciosa como sempre, e ponho-me em movimento a coberto das estrelas. Cubro a maior parte do meu extenso território de caça, de olhos e ouvidos alerta, sem encontrar aquilo que procuro. Decido, então, manter-me imóvel, até porque me sinto fatigado, e para tal escolho um local estrategicamente perfeito. É um ermo sombrio e abrigado de onde posso ver tudo sem ser visto. Não terá passado muito tempo, quando algo me chama a atenção. As folhas das árvores são fustigadas, não sem alguma violência, pela força do vento, que traz até mim um odor que me é familiar. 

         O cheiro de carne viva torna-se mais intenso, até que, por fim, a presa entra no meu campo de visão e eu posso comprovar que se trata de um belíssimo exemplar. Move-se com toda a inocência de um cordeiro a caminho do seu sacrifício. O vento está a seu favor, pelo que não será capaz de farejar o perigo até ser tarde demais. Aproxima-se de mim, de forma gradual. Sinto uma descarga de adrenalina e o meu coração encarrega-se de fornecer maiores quantidades de sangue aos meus músculos tensos. Arqueio o meu corpo delgado para a frente, com os meus membros inferiores flectidos de forma a darem-me o impulso necessário para me erguer do chão. É então que sinto a presa tão próxima de mim que posso ouvir a sua respiração. Precipito-me sobre ela, de garras e dentes à mostra, e em pleno voo parece-me poder escutar o seu sangue gelar-se-lhe nas veias. 

         Ante o seu espanto, ceifo-lhe a vida com um golpe limpo e certeiro na sua jugular palpitante. Com a sua carne tenra, asseguro a minha sobrevivência por mais uma noite.

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