POLITIKA

         O homem caminhava pelo deserto sob um Sol abrasador, os seus pés afundando-se na areia quente, gotas grossas de suor a brotar da sua testa. Depois de muito ter andado, a traqueia a querer fechar-se, o ar entrando e saindo dos seus pulmões com um silvo agudo, deparou-se com um poço, decerto construído por algum antigo povo nómada, o qual ostentava uma decrépita tabuleta com garatujos gastos, indicando que a água estava inquinada. A sede apertava, mas não foi capaz de não achar graça à ironia da situação: ou morria de sede, ou morria envenenado. 

         Ficou imóvel, de cabeça baixa, contemplando a sua sombra. Estava ainda a reflectir acerca do que iria fazer em seguida, quando, para seu espanto, viu a sua sombra mover-se em direcção ao poço. Não é possível, pensou ele, continuo parado, e no entanto ela move-se. Caiu sobre os seus joelhos, sentindo a cabeça andar à roda. A sua sombra estava debruçada sobre o poço, e pôde ouvi-la claramente a sorver a água com extrema sofreguidão. 

         Olhou para cima, para a tabuleta, e em vez de um aviso acerca da má qualidade da água, viu escrita a palavra «corrupção».

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