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Acerca de 'O Desejo e Outros Demónios'

O título do livro é uma referência a Del Amor y Otros Demónios, de Garcia Márquez, sendo que, no meu conto, o que move os personagens é o desejo mais do que o amor, pelo menos no sentido em que eu o concebo. As Partes Sagradas foi-me inspirado por Vanity Fair, dos Mr. Bungle, um dos inúmeros projectos paralelos do músico norte-americano Mike Patton, mais conhecido como vocalista dos Faith No More. Na letra desta canção, há uma referência à seita cristã Skoptsy, que existiu na Rússia e na Roménia desde 1711 até meados do século XX. A epígrafe remete para uma canção dos Interpol, C’mere. A crónica Bons Rapazes, atribuída a John Vargas, é uma recordação de infância, uma reencenação inconsciente de Lord of The Flies por um grupo de crianças barreirenses nos anos oitenta. Anima Animus, além de ser um conceito jungiano, é também o nome de um álbum dos The Creatures, a banda de Siouxsie Sioux e Budgie, ambos dos Siouxsie and The Banshees. Tchecov dizia que, quando uma arma aparece no primeiro acto de uma peça, ela será disparada no terceiro. Foi esse o preceito que tentei seguir. O Instituto revela-nos uma criatura baptizada de Berserker mantida em cativeiro no Instituto MacLaren, a qual foi inspirada no Wendigo de Algernon Blackwood, que, por sua vez, inspirou a criação de Ithaqua por parte de August Derleth. The Day The World Went Away, dos Nine Inch Nails, esteve na génese do conto O Dia em que o Mundo se foi Embora. Uma forte constipação, que me roubou o sentido do olfacto e o do paladar, e o efeito da altitude, ouvidos tapados e tonturas, forneceram a matéria-prima. Memento Mori traduz-se por “Lembra-te de que és mortal”. É uma história de fantasmas, sem que nada de fantasmagórico ou assustador ocorra. Reconheço nela ecos das leituras que fiz das Memórias Póstumas de Brás Cubas, do escritor brasileiro Machado de Assis, e do filme Memento, de Christopher Nolan. As duas histórias que compõem Jezebel acabaram por convergir acidentalmente, apesar de terem sido escritas em ocasiões separadas, sendo que fui buscar a história de Cesar e Rakel a uma notícia de jornal. Em A Lei de Thalia, viajamos até uma Saint Paul distópica e pós-apocalíptica onde os criminosos, e em particular os infanticidas, são obrigados a confrontar os familiares das suas vítimas num exercício extremo de justiça restaurativa. Mr. Butterfly foi parcialmente inspirado em M. Butterfly, um filme de 1993 realizado por David Cronenberg e adaptado da peça homónima escrita pelo dramaturgo sino-americano David Henry Hwang, o qual se baseou na história real do diplomata Bernard Boursicot e Shi Pei Pu, um cantor da ópera de Pequim, ambos condenados por espionagem pelo governo francês nos anos 80. No filme, René Gallimard (Jeremy Irons) apaixona-se pela cantora Song Liling (John Lone), alheio ao facto de que, na tradicional ópera chinesa, todos os papéis serem interpretados por homens. Descoberto o logro (que incluiu o «nascimento» de uma criança de olhos rasgados e cabelos loiros), Gallimard é preso por crimes de espionagem e torna-se alvo de chacota em toda a França. Na prisão, recupera por instantes a mulher que ama, encenando a sua trágica transformação em Madame Butterfly, momentos antes de tirar a própria vida com um fragmento de espelho. Em Mr. Butterfly, o catalisador da metamorfose não é a perda da mulher amada, mas sim a sua descoberta. Aprisionado na sua indefinição, Christian Sands encontra em Patricia Kane a razão para se transformar naquilo que, potencialmente, já seria. O nome do protagonista foi tomado de empréstimo da faixa Christiansands de Tricky, do seu álbum de 1996, Pre-Millenium Tension. A epígrafe foi retirada de I Would for You, do álbum Hesitation Marks, dos Nine Inch Nails. A designação Gatherer Of Data remete para o álbum Desensitized dos Pitchshifter, lançado em 1993.Cadernos de Saint Paul apresenta um excerto do diário do escritor Tony Dornbusch e foi construído à volta da noção de partenogénese, ou seja, a reprodução assexuada ou nascimento virgem. De salientar que, a ser possível a sua ocorrência em seres humanos, o ser resultante seria sempre do sexo feminino e, tirando algumas alterações genéticas, muito parecido com a progenitora.

                                                                                                                              ANTÓNIO BIZARRO




Urbis et Orbis - Coolboks


"Saint Paul é o centro do meu universo ficcional, uma cidade-Estado algures a meio caminho entre a Europa e as Américas (..) Situar histórias numa cidade fictícia é algo que já foi feito por vultos da literatura maiores do que eu, que sou ainda um mero vislumbre: Lovecraft tinha Arkham, Garcia Márquez Macondo e Faulkner o Condado de Yoknapatawpha."


'A Espada de Deus', António Bizarro

'O Motor do Caos e da Destruição', António Bizarro, Coolbooks



Uma palavra encontrada num livro antigo tem o potencial de dizimar a Humanidade, e duas facções distintas digladiam-se pela sua posse na cidade da indústria. 
As autoridades de Saint Paul entram em alerta total devido a uma ameaça vinda dos céus da cidade, e cabe ao inspector Lindberg travá-la. 
O mote «sexo, drogas e rock industrial» manifesta-se na forma de uma estranha doença que aflige Julian Kronenburg, vocalista da banda Brides of Christ. 
Numa Saint Paul futurista, o êxodo pendular casa-trabalho/trabalho-casa torna-se numa luta diária pela sobrevivência. 
A queda de um realizador de cinema no vazio arrasta consigo Felix e Melissa, os quais acabam por se unir na sua luta contra o medo e a solidão. 
Um escritor atravessa o mundo e os séculos, carregando um segredo terrível, e encontra a sua alma gémea em Saint Paul. 
A mesma tecnologia que permite repovoar a Terra após o Apocalipse Andróide serve para despoletar psicopatologias latentes, bem como o aparecimento de novos e terríveis crimes. 
Nas palavras do escritor G.H. Ballantine, «o tempo é o motor do caos e da destruição», e em Saint Paul o passado e o futuro colidem, transformando-se mutuamente.

Acerca de 'O Motor do Caos e da Destruição'


    De acordo com o Talmude, a língua do homem é como a abelha: tem mel e tem ferrão. No Livro de Provérbios, 18 versículo 21, Salomão diz que a morte e a vida estão no poder da língua. Foram esses os pontos de partida para escrever A Espada de Deus
  Julian Kronenburg, além do nome que evoca o de David Cronenberg, foi baseado na figura do vocalista dos Alice In Chains, Layne Staley, cujo corpo foi descoberto a 19 de Abril de 2002, apontando-se a data da morte para o dia 5 desse mês. A formação musical de Julian foi muito semelhante à minha. O festival City Of Industry que é referido na história foi buscar o nome ao meu projecto de música electrónica, com o qual cheguei a editar cinco faixas na compilação Seek and Thistroy, da Thisco Records. No alinhamento desse festival, constam nomes de bandas inventadas por mim. 
    Androctonus é baseada num acontecimento real que ouvi narrado por um jornalista. Em Belgrado, os jipes da ONU andavam a ser alvo de ataques de snipers. O FBI foi chamado a investigar e descobriu o autor dos disparos.
    Crimes Futuros é a incursão numa Saint Paul pós-apocalíptica onde a clonagem de seres humanos adquire contornos sinistros. A caça de humanos, ou neste caso, Numanos, foi directamente inspirada pela faixa Down in The Park, dos Tubeway Army, banda que tinha como vocalista Gary Numan. 
    Réplica foi inspirada por várias histórias que versam sobre o tema do doppelgänger, nomeadamente, William Wilson de Edgar Allan Poe e O Duplo de Dostoiévski.
    A Solidão e o Medo das Alturas tem por base algo que aconteceu à irmã de uma amiga minha, um incidente em tudo semelhante ao que envolveu Melissa Baum e Mathias Volker. 
    Blasco passa-se num período anterior ao Apocalipse Andróide, um acontecimento catastrófico que levará a Humanidade perto da extinção. Os Incineradores, máquinas de extermínio e esterilização, são prenúncios do que está por vir. Neste conto, somos apresentados a G.H. Ballantine, uma discreta homenagem ao escritor britânico J. G. Ballard. 
    Escreveu Borges: “Desvario laborioso e empobrecedor é o de compor vastos livros (…) Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário.” O excerto do livro de G.H. Ballantine, que se apresenta em O Motor do Caos e da Destruição, começou por ser um conjunto de, à falta de termo melhor, poemas. Certa passagem de Anarquista Duval, dos Mão Morta, inspirou o título: «Dizem que semeio o caos e a destruição como o vento semeia as papoilas... Meu nome é Liberdade!»
    Commuters foi escrito em várias travessias de barco sobre o Tejo, do Barreiro para Lisboa e de Lisboa para o Barreiro, num tom hiperbólico e caricatural. 
    A Sombra do Viajante, uma alusão pouco subtil a O Viajante e a sua Sombra, de Friedrich Nietzsche, narra a história de Roman Petrescu, um vampiro-escritor, ao som de Bauhaus, Joy Division e Sisters Of Mercy. Miguel Torga queixava-se que os editores eram uns vampiros, preferindo as edições de autor. Neste caso, o editor torna-se presa dos autores.
    Génesis carece de muitas explicações. É a história da escrita de uma história, e nada mais.

ANTÓNIO BIZARRO


Acerca de 'O Longo Caminho de Regresso'

O conto que dá o nome a este livro tomou de empréstimo parte da letra da canção Evil, dos Interpol. Nele, acompanhamos o escritor Tony Dornbusch na sua busca de respostas por parte do seu pai, cuja ausência determinou de forma insuspeita o rumo da sua existência.
     Em O Complexo de Siobhan, somos apresentados a Tony Dornbusch, o qual, não sendo um alter-ego de António Bizarro per se, é talvez uma projecção autobiográfica muito próxima da caricatura. Ao escritor de Saint Paul, é-lhe narrada a história de um assassino intra-uterino.
     N’As Luzes Negras da Cidade, o protagonista é confrontado com o seu passado e com o futuro da Humanidade em simultâneo. A inspiração surgiu do texto que se lhe segue, Akasha, e do artigo atribuído ao Dr. Mallory, Singularidade Tecnológica, que acabou incorporado no conto.
     Ivan, o Terrível era uma história dentro de outra história que acabou por se autonomizar. É um confronto entre o Bem e o Mal, em que o pequeno Ivan, qual David, derrota o seu Golias com o poder da sua jovem mente, inspirado por Sun Tzu e Maquiavel.  
     Estrela da Manhã narra a imersão de Tony Dornbusch no underground artístico de Saint Paul.  
     Faux Pas é um nano-conto inspirado em Conditions of My Parole, uma faixa dos Puscifer, o projecto paralelo do frontman dos Tool, Maynard James Keenan.  
     Johanna e os Demónios baseia-se numa situação real que ocorreu em Portugal, no ano de 1933, numa aldeia que ficou tristemente conhecida pelo epónimo sinistro de ‘Mataqueima’ (muito antes de mim, Bernardo Santareno baseou-se nos mesmo acontecimentos para escrever O Crime de Aldeia Velha, livro que daria origem ao filme homónimo.) 
     A Comédia Humana é baseada numa figura real que viveu no Barreiro nos anos oitenta e noventa, no auge do tráfico e do consumo de heroína. O indivíduo em questão era frequentemente tido como morto, ressurgindo sempre num estado ainda mais decadente do que antes.  
     Ruínas Futuras foi-me sugerido pela canção Die Befindlichkeit des Landes, dos Einsturzende Neubauten e, em especial, por The Dead Zone, de Stephen King, por via do filme homónimo de David Cronenberg, com a diferença de que, na minha história, o protagonista não pode fazer nada para evitar a extinção da Humanidade.  
     Ergástulo toma o nome de uma faixa do Álbum Negro, dos Bizarra Locomotiva, e foi parcialmente inspirado pelas cenas finais do filme argentino El Secreto de Sus Ojos de Juan José Campanella, por sua vez, baseado no livro de Eduardo Sacheri.
     O título Visões/Ficções fui buscá-lo à canção de António Variações, Visões-Ficções (Nostradamus), que acabou por influenciar retroactivamente o conto anterior. O artigo assinado por Tony Dornbusch ilustra algumas das razões pelas quais escrevo ficção.

ANTÓNIO BIZARRO

'O longo caminho de regresso' (Excerto)

'It took a life span, with no cellmate, to find the long way back.’ 
Tony Dornbusch não via o pai há quinze anos, metade da sua vida. Ao dirigir-se para norte pela auto-estrada, conduzia a uma velocidade moderada, embora estivesse ansioso. Através das colunas, o vocalista dos Interpol cantava para ele num timbre metálico saturado de reverb, e quando a faixa chegou ao fim, pô-la a tocar do início. Ia em busca de uma resposta, de uma explicação. Mas não tinha pressa. O dia nascera luminoso. Agora tornava-se cinzento à medida que abandonava o sul. Parou para comer numa estação de serviço, algures a meio caminho entre Saint Paul e Blackwater. De Blackwater a Castlewood, percorreria trinta e cinco quilómetros, de Castlewood a White Chapel, mais seis. Cobraram-lhe couro e cabelo por uma sanduíche e um refrigerante, a definição perfeita de roubo de estrada. Enquanto mastigava a contra gosto, lembrou-se do dia em que a mãe morrera (...)

O longo caminho de regresso: playlist