WIP: O General



             — É verdade que o General é invulnerável? Como... uma máquina? — interrompeu Karuna, sentindo-se cada vez mais desconfortável com a tensão reinante.
              Sim, era verdade, mas não como uma máquina, salientou Berserker.
              — Foda-se — exclamou Shadow, — não me digas que acreditas nessas tretas...
              — Uma vez — disse Berserker, ignorando Shadow ostensivamente, — houve um ataque a uma das nossas bases do outro lado do Arion, a alguns quilómetros a leste do quartel-general. Um HKG iludiu a nossa vigilância e comprometeu as instalações. O General ordenou que nos dividíssemos em grupos de três e abandonássemos o edifício. Calhou que eu fugisse com ele e com um novato chamado Alfonso Klein, nome de código Cobra. Ora, não sei se foi coincidência ou se o HKG tinha como alvo prioritário o General, o certo é que veio atrás de nós e encurralou-nos nas ruínas de uma velha fábrica de produtos químicos. O General dirigiu-se para a máquina, disparando uma rajada de metralhadora contra ela, enquanto nos mandava fugir e reagrupar com o resto dos nossos camaradas na base Delta, trinta quilómetros para sul. O HKG disparou um único projéctil à queima-roupa, em cheio no peito do General. Eu e o Cobra fugimos para o telhado da fábrica e vimo-nos sem maneira de descer, pelo menos, sem partirmos uns quantos ossos. O HKG encontrou-nos e aproximou-se de nós lentamente, em zig-zag, como um gato a brincar com um rato antes de o matar. Deixei cair a minha metralhadora e abri os braços, desafiando a máquina, querendo mostrar-lhe que nós, os humanos, não temos medo de morrer. O Cobra... pobre Alfonso, entrou em pânico e saltou do telhado. Mais tarde, encontrámo-lo empalado numa viga de aço. Tivesse ele aterrado meio metro ao lado e talvez se tivesse safado com uma perna partida....
              — O que aconteceu depois? —, perguntou Doggo, perante o silêncio prolongado de Berserker.
              — Deixa-me adivinhar —, disse Shadow, sarcasticamente, — o General apareceu do nada, deu cabo do HKG e salvou-te a vida! Foda-se, eu já ouvi trinta versões diferentes dessa história... Isso são merdas que inventam para as pessoas se sentirem inspiradas pela figura do líder destemido, como se ele fosse uma espécie de Messias que nos vai libertar do Inferno na Terra...
              O General, continuou Berserker, calmamente, apareceu por detrás do HKG e arrancou-lhe aquilo a que se pode chamar de cabeça, salvando-lhe a vida. Não lhe interessava quantas versões existiam daquela história, aquela era a única verdadeira, e por mais anos que vivesse nunca se iria esquecer do sorriso na cara do General, com o sub-zero feito em farrapos na zona do peito, e do sangue que o cobria, o seu próprio sangue. Tudo o que conseguira balbuciar fora: “Pensei que tivesse morrido.” “Sim”, dissera o General, “mas já me sinto melhor.”

Acerca de 'O Desejo e Outros Demónios'

O título do livro é uma referência a Del Amor y Otros Demónios, de Garcia Márquez, sendo que, no meu conto, o que move os personagens é o desejo mais do que o amor, pelo menos no sentido em que eu o concebo. As Partes Sagradas foi-me inspirado por Vanity Fair, dos Mr. Bungle, um dos inúmeros projectos paralelos do músico norte-americano Mike Patton, mais conhecido como vocalista dos Faith No More. Na letra desta canção, há uma referência à seita cristã Skoptsy, que existiu na Rússia e na Roménia desde 1711 até meados do século XX. A epígrafe remete para uma canção dos Interpol, C’mere. A crónica Bons Rapazes, atribuída a John Vargas, é uma recordação de infância, uma reencenação inconsciente de Lord of The Flies por um grupo de crianças barreirenses nos anos oitenta. Anima Animus, além de ser um conceito jungiano, é também o nome de um álbum dos The Creatures, a banda de Siouxsie Sioux e Budgie, ambos dos Siouxsie and The Banshees. Tchecov dizia que, quando uma arma aparece no primeiro acto de uma peça, ela será disparada no terceiro. Foi esse o preceito que tentei seguir. O Instituto revela-nos uma criatura baptizada de Berserker mantida em cativeiro no Instituto MacLaren, a qual foi inspirada no Wendigo de Algernon Blackwood, que, por sua vez, inspirou a criação de Ithaqua por parte de August Derleth. The Day The World Went Away, dos Nine Inch Nails, esteve na génese do conto O Dia em que o Mundo se foi Embora. Uma forte constipação, que me roubou o sentido do olfacto e o do paladar, e o efeito da altitude, ouvidos tapados e tonturas, forneceram a matéria-prima. Memento Mori traduz-se por “Lembra-te de que és mortal”. É uma história de fantasmas, sem que nada de fantasmagórico ou assustador ocorra. Reconheço nela ecos das leituras que fiz das Memórias Póstumas de Brás Cubas, do escritor brasileiro Machado de Assis, e do filme Memento, de Christopher Nolan. As duas histórias que compõem Jezebel acabaram por convergir acidentalmente, apesar de terem sido escritas em ocasiões separadas, sendo que fui buscar a história de Cesar e Rakel a uma notícia de jornal. Em A Lei de Thalia, viajamos até uma Saint Paul distópica e pós-apocalíptica onde os criminosos, e em particular os infanticidas, são obrigados a confrontar os familiares das suas vítimas num exercício extremo de justiça restaurativa. Mr. Butterfly foi parcialmente inspirado em M. Butterfly, um filme de 1993 realizado por David Cronenberg e adaptado da peça homónima escrita pelo dramaturgo sino-americano David Henry Hwang, o qual se baseou na história real do diplomata Bernard Boursicot e Shi Pei Pu, um cantor da ópera de Pequim, ambos condenados por espionagem pelo governo francês nos anos 80. No filme, René Gallimard (Jeremy Irons) apaixona-se pela cantora Song Liling (John Lone), alheio ao facto de que, na tradicional ópera chinesa, todos os papéis serem interpretados por homens. Descoberto o logro (que incluiu o «nascimento» de uma criança de olhos rasgados e cabelos loiros), Gallimard é preso por crimes de espionagem e torna-se alvo de chacota em toda a França. Na prisão, recupera por instantes a mulher que ama, encenando a sua trágica transformação em Madame Butterfly, momentos antes de tirar a própria vida com um fragmento de espelho. Em Mr. Butterfly, o catalisador da metamorfose não é a perda da mulher amada, mas sim a sua descoberta. Aprisionado na sua indefinição, Christian Sands encontra em Patricia Kane a razão para se transformar naquilo que, potencialmente, já seria. O nome do protagonista foi tomado de empréstimo da faixa Christiansands de Tricky, do seu álbum de 1996, Pre-Millenium Tension. A epígrafe foi retirada de I Would for You, do álbum Hesitation Marks, dos Nine Inch Nails. A designação Gatherer Of Data remete para o álbum Desensitized dos Pitchshifter, lançado em 1993.Cadernos de Saint Paul apresenta um excerto do diário do escritor Tony Dornbusch e foi construído à volta da noção de partenogénese, ou seja, a reprodução assexuada ou nascimento virgem. De salientar que, a ser possível a sua ocorrência em seres humanos, o ser resultante seria sempre do sexo feminino e, tirando algumas alterações genéticas, muito parecido com a progenitora.

                                                                                                                              ANTÓNIO BIZARRO




Would You? - Julian Kronenburg

Letra do primeiro single retirado de Resurrected, o primeiro álbum a solo de Julian Kronenburg, ex-vocalista dos Brides of Christ.



Would you be
Afraid of me
If I told you…?

Would you run
Away from me
If I told you…?

I cannot
Function in
This sea of dysfunctionality
 In a world
Where there’s a girl
Meant to be with me

Would you doubt
My sincerity
If I told you…?

Would you think
Ill of me
If I told you…?

I cannot
Function in
This sea of dysfunctionality
 In a world
Where there’s a girl
So far away from me

“I would rather
Be alone
For all eternity
I would rather
Be gone forever
Away from your
Monstrosity…” 

Numan Nature


Se tivesse de apontar alguém como o meu Personal Jesus, esse alguém seria o Gary Numan. O músico britânico, que tem tantos anos de carreira como eu de vida, foi e continua a ser conhecido como um one hit wonder, mercê do estrondoso sucesso global da canção Cars (um fenómeno da cultura popular que mereceu até uma referência num episódio do Family Guy e uma cover por parte dos Fear Factory com o próprio Gary Numan).
Pai espiritual dos Nine Inch Nails, Marilyn Manson e Fear Factory, entre muitos outros, Gary Numan atravessou um longo deserto nos anos 80. Chegado aos anos 90, deixou-se influenciar pela sua própria descendência e reinventou-se, permitindo-se contaminar pelas niilistas paisagens industriais e pós-industriais que ele próprio ajudou a desenhar.
Descobri-o verdadeiramente através do filme Dark City, de Alex Proyas, realizador de outros filmes tais como The Crow e I, Robot. A banda-sonora incluía o tema Dark do seu álbum Exile, e quando o ouvi não queria acreditar que aquele era o mesmo Gary Numan do tema Cars.
Comecei a segui-lo no velhinho MySpace  e a comprar a sua discografia com a avidez de um fanático, transformando-me então num numanoid. Uma crítica a Jagged resumia o conceito do álbum a duas palavras: Android Armaggedon. Daí até ao meu conceito de Android:Apocalypse foi um pequeno passo.
Se, antes dele, os Alice In Chains e os Nine Inch Nails tinham salvo a minha vida, foi Gary Numan que me apontou o caminho a seguir. Não é coincidência o próprio Numan ter ido buscar muita da sua inspiração a J.G. Ballard, Philip K. Dick e William S. Burroughs, autores que ajudaram a formar-me enquanto escritor, e que tenha chegado a samplar o filme Blade Runner, o meu filme favorito desde sempre.
Em 2017, Numan continua mais relevante do que nunca; Me I Disconnect From You, de 1979, parece profetizar o aparecimento do Facebook, e o enredo do  filme de animação Wall-E parece ter sido decalcado de uma das faixas do álbum de 1980, Telekon
Resta esperar que o mundo pós-apocalíptico descrito em Savage, o seu álbum mais recente, não se venha a revelar mais uma das suas profecias. 

Vargas


"— Havia uma seita russa cujos seguidores acreditavam que o pénis simbolizava a serpente e os seios o fruto proibido.
— Sim, e depois?
— Os homens amputavam o pénis e as mulheres os seios. Para se distanciarem do pecado original.
— As coisas que tu sabes…
— Tens alguma coisa que se beba? — perguntou ele, levantando-se da cama, arrastando os pés em direcção à cozinha.
— Água, leite…
— Com álcool...
— Sumo de laranja… — continuou ela, fingindo não ter ouvido.
— Vinho! — gritou John, abrindo a porta do frigorífico.
— Amanhã vou para Londres — disse Ingrid, a cara encostada à ombreira da porta da cozinha.
— Quanto tempo vais ficar lá?
— Uma semana.
— Eu podia ir contigo.
— É melhor não. Vou passar a maior parte do tempo a trabalhar e o pouco tempo que tiver livre vai ser preenchido com estudo intensivo. Tenho exames daqui a um mês.
— Não sei como vou sobreviver uma semana sem ti — disse John, abraçando-a.
— Tenho a certeza de que vais arranjar alguma coisa com que te entreteres.
John julgou detectar uma nota de ironia no modo como Ingrid disse aquilo.
— O que queres dizer com isso?
— Nada, não sei. Não tens nenhum livro para escrever?
— Não escrevo desde que te conheci, nem uma linha.
— Lamento imenso.
— Não, não lamentes. É sinal de que estou a conseguir escapar da minha cabeça.
Enfiou a mão no bolso do casaco e tirou um cigarro.
— Não devias fumar, John, pelo menos assim tanto. Também não te fazia mal nenhum deixares de beber. Não percebo por que o fazes…
— Odeio-me e quero morrer.
— Não digas isso nem a brincar.
— Vou tentar deixar de fumar e de beber, prometo-te.
— Não te quero obrigar a fazer nada que seja contra a tua vontade.
— Eu quero fazer isto, por ti, meu amor, quero ser melhor.
Ingrid sorriu tristemente e beijou-o na face, como a mãe de uma criança problemática."

Autores em leituras: Carla Ramalho


Uma crítica simpática ao meu 'O motor do caos e da destruição' por parte de Carla Ramalho, autora do romance 'E ficou a terra', também da Coolbooks.

 "À medida que as diversas narrativas desfilavam à frente dos meus olhos, revisitei o mundo caótico de George Miller, e do seu Mad Max; lembrei-me de David Fincher e dos seus Sete Pecados Mortais; e até fui buscar a velhinha série Balada de Hill Street, que devorava na companhia do meu pai."


http://www.coolbooks.pt/noticias/detalhe/?id=124442&langid=1

Nós Que não Somos Como os Outros


"nós que não somos como os outros,
somos como os outros
que não são como eles,
que não são como nós,
que não somos como eles
nem como ninguém"


in O Álbum Negro, Raymond Fernández

Uma Questão de Tempo


"uma questão de tempo,
é apenas isso, 
uma questão de tempo
até estarmos todos mortos,
atirados para valas comuns
como frigoríficos avariados
despejados num baldio nos arredores 
de uma cidade-cemitério;
vivemos no prelúdio de um apocalipse 
feito pelo homem
e para o homem"


in O Álbum Negro, Raymond Fernández

Urbis et Orbis - Coolboks


"Saint Paul é o centro do meu universo ficcional, uma cidade-Estado algures a meio caminho entre a Europa e as Américas (..) Situar histórias numa cidade fictícia é algo que já foi feito por vultos da literatura maiores do que eu, que sou ainda um mero vislumbre: Lovecraft tinha Arkham, Garcia Márquez Macondo e Faulkner o Condado de Yoknapatawpha."