WIP: Karuna e Doggo



               Da outrora gloriosa Saint Paul, da qual se dizia, como de Roma, que o espaço da cidade e o do mundo eram um e o mesmo, restava apenas ruínas e desolação. Os poucos edifícios que se tinham mantido de pé eram testemunho da ferocidade da guerra que opusera as máquinas aos seus criadores.
              Karuna e Doggo, os membros mais novos do NG-17787, tinham crescido já o conflito havia escalado em força, e o que conheciam da grandeza perdida de Saint Paul resumia-se às memórias em segunda-mão daqueles que tinham vivido o esplendor da cidade, pelo que aquela era uma imagem familiar para eles.
              Mas para Berserker e Shadow, que haviam crescido nas suas ruas vibrantes e longas avenidas, brincando nas margens do agora morto rio Arion, sob a sombra das fábricas com as suas chaminés compridas a cuspir fumo e vapor, aquela visão lembrava-os de tudo o que tinham deixado para trás. A guerra podia acabar naquele dia, sem que nenhum deles pudesse assistir ao renascer da cidade.                             

WIP: Shadow



   Shadow percorreu os corredores vazios da antiga catedral de consumo, esmagando os vidros com o cardado das suas botas, lembrando-se de quando o edifício ainda fervilhava de actividade, e ele e a sua então namorada, Emily, iam espreitar a livraria antes de irem ao cinema.
              Recordou-se da noite em que a conheceu, dos seus olhares recriminadores e modos bruscos enquanto lhe aplicava os curativos no pescoço e no braço.
              — Acha que fiquei assim numa luta de gangs, Doutora? — perguntou ele, sarcástico. — Pode perguntar ali ao polícia que me trouxe o que aconteceu...
              Ele já achava normal, por mais bizarro que isso fosse, que as pessoas julgassem que um jovem negro de aspecto possante só pudesse ser atleta profissional, porteiro de discoteca ou criminoso. Que uma mulher como ela julgasse o mesmo deixava-o zangado. Emily olhou para ele, como se o estivesse a ver pela primeira vez desde que dera entrada nas Urgências, e as linhas do seu rosto suavizaram-se.
              — Por que não me conta o senhor o que se passou?
              — Pode tratar-me por ***.
              Antes de Shadow se ir embora, Emily recomendou-lhe que passasse por lá daí a uns dias para mudar os pensos e ver se não havia sinais de infecção.
              Ao cruzar-se com uma loja de brinquedos, avançou alguns anos até se ver à porta do quarto de Nuala, a observar Emily com uma mão na sua testa e a outra na testa da filha, tentando perceber se ela estava com febre. Deixou-se cair de joelhos, sentindo que era agora que ia quebrar, por fim, e que desta vez nada o impediria de enfiar o cano da arma na boca e de premir o gatilho. O momento de fraqueza foi momentâneo, como sempre. Fungou do nariz, limpou as poucas lágrimas que haviam conseguido escapar dos seus olhos, e sacudiu aquela sensação horrível com uma cuspidela para o chão.

WIP: O General



             — É verdade que o General é invulnerável? Como... uma máquina? — interrompeu Karuna, sentindo-se cada vez mais desconfortável com a tensão reinante.
              Sim, era verdade, mas não como uma máquina, salientou Berserker.
              — Foda-se — exclamou Shadow, — não me digas que acreditas nessas tretas...
              — Uma vez — disse Berserker, ignorando Shadow ostensivamente, — houve um ataque a uma das nossas bases do outro lado do Arion, a alguns quilómetros a leste do quartel-general. Um HKG iludiu a nossa vigilância e comprometeu as instalações. O General ordenou que nos dividíssemos em grupos de três e abandonássemos o edifício. Calhou que eu fugisse com ele e com um novato chamado Alfonso Klein, nome de código Cobra. Ora, não sei se foi coincidência ou se o HKG tinha como alvo prioritário o General, o certo é que veio atrás de nós e encurralou-nos nas ruínas de uma velha fábrica de produtos químicos. O General dirigiu-se para a máquina, disparando uma rajada de metralhadora contra ela, enquanto nos mandava fugir e reagrupar com o resto dos nossos camaradas na base Delta, trinta quilómetros para sul. O HKG disparou um único projéctil à queima-roupa, em cheio no peito do General. Eu e o Cobra fugimos para o telhado da fábrica e vimo-nos sem maneira de descer, pelo menos, sem partirmos uns quantos ossos. O HKG encontrou-nos e aproximou-se de nós lentamente, em zig-zag, como um gato a brincar com um rato antes de o matar. Deixei cair a minha metralhadora e abri os braços, desafiando a máquina, querendo mostrar-lhe que nós, os humanos, não temos medo de morrer. O Cobra... pobre Alfonso, entrou em pânico e saltou do telhado. Mais tarde, encontrámo-lo empalado numa viga de aço. Tivesse ele aterrado meio metro ao lado e talvez se tivesse safado com uma perna partida....
              — O que aconteceu depois? —, perguntou Doggo, perante o silêncio prolongado de Berserker.
              — Deixa-me adivinhar —, disse Shadow, sarcasticamente, — o General apareceu do nada, deu cabo do HKG e salvou-te a vida! Foda-se, eu já ouvi trinta versões diferentes dessa história... Isso são merdas que inventam para as pessoas se sentirem inspiradas pela figura do líder destemido, como se ele fosse uma espécie de Messias que nos vai libertar do Inferno na Terra...
              O General, continuou Berserker, calmamente, apareceu por detrás do HKG e arrancou-lhe aquilo a que se pode chamar de cabeça, salvando-lhe a vida. Não lhe interessava quantas versões existiam daquela história, aquela era a única verdadeira, e por mais anos que vivesse nunca se iria esquecer do sorriso na cara do General, com o sub-zero feito em farrapos na zona do peito, e do sangue que o cobria, o seu próprio sangue. Tudo o que conseguira balbuciar fora: “Pensei que tivesse morrido.” “Sim”, dissera o General, “mas já me sinto melhor.”