… soltam-se palavras vãs, frases entrecortadas por gritos, mãos
trémulas em carícias obscenas, devaneios de um louco profeta, profanas
obsessões silenciadas de rituais iniciáticos delineados em frenéticos murmúrios
ditirâmbicos, incendiadas paixões irradiadas de olhares perversos e malditos,
sonhos de morte prematura, horrores premonitórios em descargas de angústia e
ódio cego, intermináveis buscas hedonistas em labirintos de prata, sombras
inertes e solitárias, abomináveis predadores errantes em festins de putrefacta
devoção, paraísos perdidos nas margens de rios de águas sanguinolentas,
estátuas de sublimada nudez em contracções plásticas, súmula de noções
transmutadas, corolário de imagens invertidas, de rudes aberrações sónicas,
risos histéricos entoados como prenúncios de dor e medo, abraços dominadores
exalando resquícios de ilusão e asfixia, contravenções lúbricas, filiações
bélicas vetustas em abismos de sedução e luz...
WIP: Adam
Apesar de
no dia seguinte se sentir melhor, a sensação de que algo estava errado com o
seu corpo e a sua mente não abandonou Adam. Pelo contrário, intensificou-se.
A meio da jornada de trabalho,
disse ao supervisor que não se sentia bem e foi-se embora. Caminhou pela
cidade, sem rumo, e ao passar por uma livraria, um impulso irresistível
atirou-o para o seu interior em busca de um livro.
— Posso ajudá-lo? — perguntou uma das
funcionárias.
— Estou à procura de um livro
chamado Cyberiada.
— Sabe o nome do autor? —
perguntou a jovem, encaminhando-se para o computador.
— Stanislav Lem — respondeu Adam,
sem hesitar.
Quando a funcionária regressou do
armazém com dois exemplares do livro, Adam olhou para ela como se nunca a
tivesse visto na vida.
— O que é isso? — perguntou,
confuso.
— O livro que me pediu. Um na
edição original, em polaco, e uma edição em inglês.
— Eu não lhe pedi nenhum livro...
Onde estou? Devia estar a trabalhar a esta hora, posso ser despedido...
Adam segurou a cabeça com as duas
mãos, como se receasse que ela fosse explodir, e cambaleou para trás,
derrubando expositores e chocando com os clientes que por ali andavam a
percorrer as lombadas dos livros com os olhos.
— Não fui eu que pensei isto, não
fui eu que pensei isto, se não fui eu que pensou isto, quem foi que pensou por
mim...?
— O senhor sente-se bem? —
perguntou a funcionária, pousando os livros no balcão e acercando-se de Adam. —
Quer que chame uma ambulância?
Tropeçando nos livros, Adam
desequilibrou-se e caiu de costas no chão, pontapeando o ar e gritando que
saíssem da sua cabeça, que doía e ele não aguentava mais.
WIP: Karuna e Doggo
Da outrora gloriosa Saint Paul, da qual se dizia,
como de Roma, que o espaço da cidade e o do mundo eram um e o mesmo, restava
apenas ruínas e desolação. Os poucos edifícios que se tinham mantido de pé eram
testemunho da ferocidade da guerra que opusera as máquinas aos seus criadores.
Karuna e Doggo, os membros mais novos do NG-17787, tinham crescido já o
conflito havia escalado em força, e o que conheciam da grandeza perdida de Saint
Paul resumia-se às memórias em segunda-mão daqueles que tinham vivido o esplendor
da cidade, pelo que aquela era uma imagem familiar para eles.
Mas para Berserker e Shadow, que haviam crescido nas suas ruas vibrantes
e longas avenidas, brincando nas margens do agora morto rio Arion, sob a sombra
das fábricas com as suas chaminés compridas a cuspir fumo e vapor, aquela visão
lembrava-os de tudo o que tinham deixado para trás. A guerra podia acabar
naquele dia, sem que nenhum deles pudesse assistir ao renascer da cidade.
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