Acerca de 'O Invisível, a sua Sombra e o seu Reflexo'

A maioria dos contos reunidos em O Invisível, a sua Sombra e o seu Reflexo foram recolhidos do blog Android:Apocalypse. Três histórias, Nadja Vaduva, O Sonho Siamês e McPherson, J., foram publicadas pela primeira vez em 2010, no livro Siamese Dream, e aqui são reeditadas com alterações significativas.

Nadja Vãduva surgiu-me depois da leitura de Touching From a Distance, de Deborah Curtis, a viúva do malogrado poeta mancuniano Ian Curtis, e também da audição obsessiva de All Mine dos Portishead. A fábrica abandonada pejada de discos de música clássica é uma recordação de infância.

Giver of Death, Chaos Within, Afterglow e Lovesong são letras de músicas escritas para a banda IMDK, na qual eu desempenho a função de guitarrista; é possível ouvir as demos instrumentais das duas primeiras faixas no meu canal de Youtube.

McPherson, J. é a minha versão literária de The Nurse Who Loved Me, via A Perfect Circle, sendo que a faixa original é dos Failure. One, dos Metallica (baseado em Johnny Got His Gun), e Fábrica de Oficiais, de Hans Hellmut Kirst, são duas das outras influências.

O Quarto Escuro é uma variação do tema do Candidato da Manchúria, isto é, o programa MK-Ultra, através do qual a CIA programava seres humanos para se tornarem assassinos insuspeitos. O caso mais célebre terá sido, alegadamente, o de Mark David Chapman, o homem que assassinou John Lennon.

Jacqueline Hyde era uma história inacabada que não se deixava escrever, e decidi tornar a sua escrita uma ilustração do meu processo de trabalho.

O Idólatra é uma espécie de rascunho que daria origem a uma outra história, O Desejo e Outros Demónios, daí as semelhanças entre as duas.

Os poemas agrupados sob o título O Invisível, a Sua Sombra e o Seu Reflexo foram escritos por mim e, tirando um ou dois, saíram em antologias.

O Intruso é uma variação do tema do alter-ego e foi profundamente influenciado por Fight Club, de Chuck Palahniuk.

O Que a Água me Deu foi buscar o nome à faixa de Florence and The Machine, em cuja epígrafe se reproduz parte da letra. Florence Welch inspirou-se no quadro de Frida Kahlo e em Virginia Woolf; esta última, por sua vez, influenciou certos aspectos deste conto. Mas a maior influência será, sem dúvida, a faixa Little Water Song, cantada por Ute Lemper no seu álbum de 2000, Punishing Kiss, sendo que a autoria da letra pertence a Nick Cave.

City of Industry: Slow Gun

https://enoughrec.bandcamp.com/album/city-of-industry-slow-gun



Saint Paul, Cidade da Indústria


O lançamento de O desejo e outros demónios, bem como a reedição em papel do primeiro volume (O longo caminho de regresso), marca a conclusão da minha Trilogia Cidade da Indústria. Os dois livros, juntamente com O motor do caos e da destruição, formam um conjunto de três tomos com doze histórias cada um, num total de trinta e seis. 
Escritas entre 2010 e 2015, em comum têm o facto de terem como cenário de fundo a cidade de Saint Paul e de uma ou outra personagem aparecer em mais do que uma história, em especial o escritor Tony Dornbusch, uma espécie de guia não-oficial da urbe banhada pelo rio Arion. Embora não fosse essa a minha intenção inicial, notei que muitas destas histórias eram permeadas pelo mesmo tipo de personagens, com o mesmo tipo de preocupações, as mesmas paisagens industriais e pós-industriais, sob o espectro de um acontecimento cataclísmico designado por Apocalipse Andróide, podendo considerar-se que, inconscientemente, eu estava a escrever um romance em mosaicos no qual as peças se iam encaixando sem que eu tivesse de forçá-las.

Quanto ao O desejo e outros demónios: o título do último livro da Trilogia Cidade da Indústria é uma referência a Del Amor y Otros Demónios, de Garcia Márquez, sendo que, no meu conto, o que move os personagens é o desejo mais do que o amor, pelo menos no sentido em que eu o concebo.
Em Saint Paul, o amor e o desejo andam à solta como animais ferozes em busca de suas presas.
Enquanto duas mulheres partilham o mesmo destino sem nunca se terem conhecido, ficando ligadas para sempre na memória colectiva dos habitantes de Saint Paul, uma aparição leva um escritor a percorrer as ruas da Cidade da Indústria em busca do passado.
Na mesma cidade, mas num futuro mais ou menos distante, os criminosos são obrigados a confrontar as famílias das vítimas, num exercício extremo de justiça restaurativa.
Mas não se preocupem; nas palavras do escritor Tony Dornbusch, «vão-se deitar, durmam descansados. Abaixo da superfície não se passa nada, os monstros existem somente nos pesadelos das crianças».
Mas isso não significa que o universo de Saint Paul se esgote nestes três livros: há ainda muito por dizer ou escrever acerca da Cidade da Indústria e dos seus habitantes, passados e futuros, talvez em moldes diferentes daquilo que foi feito até agora.