Sweet October

Lóbulos e ductos, células epiteliais e membrana basal, proteínas e triplo negativo, cintigrafias e emissões de positrões; foi como aprender uma língua estrangeira em braille, forçada que fui a conhecer vocábulos que agora fazem parte do meu léxico, mas que não conseguem ocupar o lugar de palavras mais amáveis e familiares, linguagem secreta de quem renasce todos os dias.
E em meu pomo, onde a escuridão houve em mim, infortunada herdeira de ancestral mutação, surgiu uma luz, in situ, dentro e fora, em meu redor e em cada fissura, brecha e fenda, reflectida no meu corpo e por ele emitida, corpo esse terraplenado, não fosse eu ser confundida com uma mera cordilheira à espera de ser conquistada.

***

Lobes and ducts, epithelial cells and basal membrane, proteins and triple negative, scintigraphies and proton emissions; it was like learning a foreign language in braille, forced as I were to learn vocables that are now part of my lexicon, all of which cannot, however, replace kinder and more familiar words, the secret parlance of those who are reborn every day. 
And in my bosom, where the darkness entered me, the unfortunate heiress of an ancestral mutation, a light rose, in situ, inside and outside, all around me and in every fissure, rift and crevice, reflected on my body and pouring out of it, a body that was flattened out in case I might be mistaken for a mere mountain range waiting to be conquered. 

António Bizarro

Sweet October Project

Um sneak peek da minha modesta contribuição para a Exposição Fotográfica Sweet October, patente no IPO do Porto durante o mês de Outubro. O mérito é todo da Ana Bee e da modelo retratada.
Todas as fotografia serão disponibilizadas online, e gostaria de convidar-vos a todos, escritores profissionais ou amadores, amantes das letras e não só, a participarem neste exercício de empatia.
A incidência do cancro da mama nos homens é ínfima, em comparação com as mulheres, mas é um problema que nos afecta a todos, que temos mães, irmãs, filhas, amigas, namoradas, vizinhas e colegas de trabalho.
Ao desafio lançado pela Ana, seguiu-se um primeiro confronto com a fotografia que me foi atribuída, de seguida, uma pesquisa médico-cientíica como tentativa de compreender a doença e a leitura de testemunhos de quem sofre ou sofreu com esta maleita.
Tudo isso interiorizado, voltei a confrontar-me com a fotografia, uma fotografia lindíssima, de uma beleza inquietante, desafiadora do meu próprio conceito de feminilidade; e desta vez, a minha atenção focou-se no rosto da Cristina, um rosto forte, de expressão quase vitoriosa, não o rosto de uma vítima, mas de uma sobrevivente, de uma guerreira a quem não faltam cicatrizes de guerra.

Exposição Fotográfica "Sweet October" - IPO PORTO | 01 a 31 de Outubro 2019



"O projeto fotográfico Sweet October é uma reflexão de empatia sobre as marcas de uma batalha, sendo uma evolução do Sweet December Project @sweetdecemberproject, lançado em Dezembro de 2017 - este conjunto de auto-retratos serviu como catarse para ultrapassar medos e ansiedades decorrentes do diagnóstico oncológico, ajudando a aceitar todas as alterações que este imputou à minha vida. Estender este projeto a outros doentes oncológicos em particular e ao público em geral decorreu do dever cívico que sentia para com todas as pessoas que como eu sofriam em silêncio. Pretende-se retirar o estigma associado a esta doença, fazendo com que as fotografias comuniquem ao mundo a realidade de um doente oncológico. O conjunto de fotografias espelha igualmente a aceitação dos dias em que só conseguimos ver a escuridão à nossa volta. Escuridão essa que nos absorve a energia ao ponto de nos anular enquanto seres vivos, mas cabe a cada um de nós optar por ascender através da luz da esperança que brilha dentro de todos nós e equilibrar a nossa vida ao aceitar que a escuridão existe, mas podemos optar por virar o nosso olhar para o lado iluminado da vida, o lado mais leve e deixar a sombra para trás. 
A iluminação presente nas fotografias pretende acentuar a concepção de que o equilíbrio só existe na presença de opostos, uma vez que não pode existir luz sem sombra, amor sem ódio nem vida sem morte. Compreender esta dualidade é o que nos capacita para aceitar qualquer transformação da nossa realidade. Somos todos seres humanos perfeitamente imperfeitos, só precisamos aceitar as nossas diferenças pois são elas que nos concedem a identidade e nos diferem dos demais.
A fotografia é uma ferramenta muito poderosa de comunicação que nos permite actuar sobre o observador de uma forma ativa, pois estimula a sua condição humana ao ver retratado de uma forma crua e sem preconceitos a vida de alguém, vida essa que nos catapulta de volta para as nossas vidas direta ou indiretamente e nos faz questionar “E SE FOSSE COMIGO?” 
Foi precisamente após tornar o projeto inicial público que comecei a ter a noção do poder comunicativo que cada fotografia encerrava, poder esse com capacidade para mudar a vida de alguém. E foi assim que comecei a recolher fotografias de outras pessoas para que também elas conseguissem ver que a sua beleza não está no exterior, mas sim na confiança e amor que nos sustenta e que nos apresenta ao mundo mesmo antes de dizer quem somos. A fotografia tornou-se assim uma ferramenta no crescimento pós-traumático das pessoas retratadas.
No conjunto fotográfico do Sweet October estão retratadas 15 pessoas que partilham o mesmo diagnóstico - cancro da mama (Agostinho Branco; Ana Isabel Pereira; Ana Lopes; Carla Sofia Henriques; Cristina Filipe Nogueira; Ivete Oliveira; Lucinda Almeida; Lourdes Pereira; Maria da Conceição; Paula Pereira; Rute Vieira; Sandra Paulino Sequeira; Susana Cunha; Susana Neto e Telma Feio)
A par das fotografias está associado um exercício de empatia escrito por um artista português convidado.
Este movimento de empatia, iniciado pelos 15 artistas convidados (Alice Vieira; António Bizarro; Dirty Coal Train - Beatriz Rodrigues e Ricardo Ramos; Joana Barrios; João Gil; Jorge Palma; José Cid; Legendary Tigerman - Paulo Furtado; Lena d'Água; Moonspell - Fernando Ribeiro; Olavo Bilac; Rita Redshoes; Samuel Úria; Suzi Silva; Virgem Suta - Jorge Benvinda e Nuno Figueiredo) irá dar o mote para o público em geral seguir os seus exemplos.
A par da inauguração da exposição será assim lançado na página oficial o movimento de empatia que desafiará todas as pessoas que sintam poder contribuir para esta causa a realizar o seu próprio exercício de empatia. 
Todos os exercícios serão publicados na página oficial deste projeto e sinalizados com #sweetoctoberprojecte #projetodoceoutubro. Adicionalmente e na mesma publicação o participante deverá desafiar/convidar 3 pessoas à sua escolha para que sigam o seu exemplo #followmysteps e abracem esta causa."

About "The Exterminating Angel"


“The Exterminating Angel” is not just a revenge story; it’s the story of a death and a rebirth, of someone who died without dying, in its own mind, and became someone diametrically opposite in order to survive.
I wrote it before “Kill Bill” was even made, perhaps, in the early 00’s, and I first got it published in 2010; even though Uma Thurman is one of my favorite actresses, I did not model Karla Engel on her. (I think is worth to point out that Tarantino’s movie fit a very specific sub-genre of exploitation movies, popular in the 70’s, called rape and revenge; just in case I end up being accused of lack of originality.)
The strongest image that I retain from this story is when Karla Engel stares into the mirror, a blue eye and a brown eye staring back at her, with different hair lengths framing her face.
Exterminating Angel, a song by British band The Creatures, was the spark that worked as a catalyst for the story to be written.
A Portuguese version of this book is on the works right now, and it will be enriched with illustrations from Portuguese artist Sérgio Aranha; it is likely that there might be an English version soon after.
The subtitle (City of Industry Book 1), means that this story is set on a fictional city called Saint Paul, where all my stories take place, and that this book is part of the series I called the City of Industry Series, of which this is the fifth title; it is also the expression of my wishful thinking, in the sense that I hope this is first volume of the series to be translated into English but not the last.
Karla Engel reappears on the third part of the story as the protector of a little girl, Raphaela. It’s a sort of an update of a fairy tale, Little Red Riding Hood, although, as Brian Aldiss said about Stanley Kubrick’s Artificial Intelligence, it might not be very «healthy» to consciously rewrite fairy tales.
This book is not is not an instruction manual or a manifesto; it is rather an emotional response to an issue I’ve been aware of since I can remember myself and the world around me: violence against women. (I grew up in a Catholic country in southern Europe where, unfortunately, violent acts against women happen too often.) I cannot fathom that this issue is so current almost twenty years into the 21st century, the same way I think it’s strange that people, specially men, were so surprised by the rise of the #MeToo movement. As I’m not an advocate of any kind of violence, revenge, in the context of this story, is to be read as justice.