Nós Que não Somos Como os Outros


"nós que não somos como os outros,
somos como os outros
que não são como eles,
que não são como nós,
que não somos como eles
nem como ninguém"


in O Álbum Negro, Raymond Fernández

Uma Questão de Tempo


"uma questão de tempo,
é apenas isso, 
uma questão de tempo
até estarmos todos mortos,
atirados para valas comuns
como frigoríficos avariados
despejados num baldio nos arredores 
de uma cidade-cemitério;
vivemos no prelúdio de um apocalipse 
feito pelo homem
e para o homem"


in O Álbum Negro, Raymond Fernández

Urbis et Orbis - Coolboks


"Saint Paul é o centro do meu universo ficcional, uma cidade-Estado algures a meio caminho entre a Europa e as Américas (..) Situar histórias numa cidade fictícia é algo que já foi feito por vultos da literatura maiores do que eu, que sou ainda um mero vislumbre: Lovecraft tinha Arkham, Garcia Márquez Macondo e Faulkner o Condado de Yoknapatawpha."


'A Espada de Deus', António Bizarro

'O Motor do Caos e da Destruição', António Bizarro, Coolbooks



Uma palavra encontrada num livro antigo tem o potencial de dizimar a Humanidade, e duas facções distintas digladiam-se pela sua posse na cidade da indústria. 
As autoridades de Saint Paul entram em alerta total devido a uma ameaça vinda dos céus da cidade, e cabe ao inspector Lindberg travá-la. 
O mote «sexo, drogas e rock industrial» manifesta-se na forma de uma estranha doença que aflige Julian Kronenburg, vocalista da banda Brides of Christ. 
Numa Saint Paul futurista, o êxodo pendular casa-trabalho/trabalho-casa torna-se numa luta diária pela sobrevivência. 
A queda de um realizador de cinema no vazio arrasta consigo Felix e Melissa, os quais acabam por se unir na sua luta contra o medo e a solidão. 
Um escritor atravessa o mundo e os séculos, carregando um segredo terrível, e encontra a sua alma gémea em Saint Paul. 
A mesma tecnologia que permite repovoar a Terra após o Apocalipse Andróide serve para despoletar psicopatologias latentes, bem como o aparecimento de novos e terríveis crimes. 
Nas palavras do escritor G.H. Ballantine, «o tempo é o motor do caos e da destruição», e em Saint Paul o passado e o futuro colidem, transformando-se mutuamente.

Acerca de 'O Motor do Caos e da Destruição'


    De acordo com o Talmude, a língua do homem é como a abelha: tem mel e tem ferrão. No Livro de Provérbios, 18 versículo 21, Salomão diz que a morte e a vida estão no poder da língua. Foram esses os pontos de partida para escrever A Espada de Deus
  Julian Kronenburg, além do nome que evoca o de David Cronenberg, foi baseado na figura do vocalista dos Alice In Chains, Layne Staley, cujo corpo foi descoberto a 19 de Abril de 2002, apontando-se a data da morte para o dia 5 desse mês. A formação musical de Julian foi muito semelhante à minha. O festival City Of Industry que é referido na história foi buscar o nome ao meu projecto de música electrónica, com o qual cheguei a editar cinco faixas na compilação Seek and Thistroy, da Thisco Records. No alinhamento desse festival, constam nomes de bandas inventadas por mim. 
    Androctonus é baseada num acontecimento real que ouvi narrado por um jornalista. Em Belgrado, os jipes da ONU andavam a ser alvo de ataques de snipers. O FBI foi chamado a investigar e descobriu o autor dos disparos.
    Crimes Futuros é a incursão numa Saint Paul pós-apocalíptica onde a clonagem de seres humanos adquire contornos sinistros. A caça de humanos, ou neste caso, Numanos, foi directamente inspirada pela faixa Down in The Park, dos Tubeway Army, banda que tinha como vocalista Gary Numan. 
    Réplica foi inspirada por várias histórias que versam sobre o tema do doppelgänger, nomeadamente, William Wilson de Edgar Allan Poe e O Duplo de Dostoiévski.
    A Solidão e o Medo das Alturas tem por base algo que aconteceu à irmã de uma amiga minha, um incidente em tudo semelhante ao que envolveu Melissa Baum e Mathias Volker. 
    Blasco passa-se num período anterior ao Apocalipse Andróide, um acontecimento catastrófico que levará a Humanidade perto da extinção. Os Incineradores, máquinas de extermínio e esterilização, são prenúncios do que está por vir. Neste conto, somos apresentados a G.H. Ballantine, uma discreta homenagem ao escritor britânico J. G. Ballard. 
    Escreveu Borges: “Desvario laborioso e empobrecedor é o de compor vastos livros (…) Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário.” O excerto do livro de G.H. Ballantine, que se apresenta em O Motor do Caos e da Destruição, começou por ser um conjunto de, à falta de termo melhor, poemas. Certa passagem de Anarquista Duval, dos Mão Morta, inspirou o título: «Dizem que semeio o caos e a destruição como o vento semeia as papoilas... Meu nome é Liberdade!»
    Commuters foi escrito em várias travessias de barco sobre o Tejo, do Barreiro para Lisboa e de Lisboa para o Barreiro, num tom hiperbólico e caricatural. 
    A Sombra do Viajante, uma alusão pouco subtil a O Viajante e a sua Sombra, de Friedrich Nietzsche, narra a história de Roman Petrescu, um vampiro-escritor, ao som de Bauhaus, Joy Division e Sisters Of Mercy. Miguel Torga queixava-se que os editores eram uns vampiros, preferindo as edições de autor. Neste caso, o editor torna-se presa dos autores.
    Génesis carece de muitas explicações. É a história da escrita de uma história, e nada mais.

ANTÓNIO BIZARRO


Songbook


Letras escritas por Julian Kronenburg para a sua demo, Kill Me Twice, lançada depois do fim dos Arctic Warfare e antes de ingressar como vocalista nos Brides of Christ.


Kill Me Twice

Shivering hands
reach for my throat
And I don´t mind
it’s all my fault

My whole existence
is made of this
Everything’s wrong
and pain is bliss


Slave Mode

In a established order
mind no longer functions
There is no thought
only implanted notions

Can’t say, if I’m asleep or awake
My voice, is just a background noise 

Thought control
becomes standard procedure
No emotions allowed
feelings don’t figure


Before the fall

You walked the skies
from time to time
The skies are gone
and with them the light

Now I see you, embracing shadows
in the heart of darkness 

You wondered why
dreams of life
After crumbling down
were doomed to die

Now I see you, fading quickly
in the land of sickness

Stars were shining
in the desert sky
In spite of grey shadows
clouding your eyes 

Now I see you, chasing demons
in the domains of madness

A Colónia


    Eu sou Siatoteilith, filho da Grande Mãe Athaysthcuea, mas o nome pelo qual os Thishmapudark se dirigem a mim é N-3303-5531. Thishmapudark, na minha língua materna, quer dizer “colosso”. A estrela brihante que alumia o meu mundo, Tshasbia, chama-se Ichmae-i, e quando Ichmae-i se completa a sua passagem pelo céu e o céu fica escuro, as nossas noites são iluminadas pelas luas-gémeas Allahsimva e Mirenmo. Quando os Thishmapudark desceram até nós, Ichamae-i desapareceu durante vários ciclos, obscurecido pelas tocas enormes que andam no céu e albergam os Thishmapudark, tanto no ar como na terra. Sou velho, já não me restam muitos ciclos de vida. Vi Ichmae-i circular Tshasbia 5475 vezes. Antes de mim, apenas Thadroapayxo, filho da Grande Mãe Zatlgardbeornname, ultrapassou as cinco mil visões. Tive a sorte de um dos Thishmapudark se ter afeiçoado a mim e me ter levado para a sua toca, uma das poucas que surgiu do chão e que permanece imóvel, livrando-me do destino de muitos dos meus semelhantes, o de trabalhar nas galerias subterrâneas de onde se extraem os cristais que fazem as tocas dos Thismapudark voarem. A maioria não chega a ver Ichmae-i a circular mais do que 2500 vezes. O meu amo é bom para mim. Alimenta-me, acaricia-me e quando Ichmae-i se esconde, leva-me para a sua cama e faz comigo o que os pais fazem às Grandes Mães antes de adormecer. As Grandes Mães vivem numa toca à parte com os pais mais fortes, onde são obrigadas a fazer o que sempre fizeram naturalmente, desde a primeira passagem de Ichmae-i pelos céus de Tshasbia. Nunca fomos tantos como antes da chegada dos Thishmapudark, apesar de os nossos amos celestes apenas deixarem viver os que de nós nascem maiores e sem defeitos. Tendo aprendido a língua do meu amo, julguei ser meu dever ensiná-la aos meus semelhantes, tal como julguei ser meu dever inteirar-me do funcionamento das tocas voadoras e dos bastões que cospem luz, e de lhes transmitir esse conhecimento. Já somos capazes de manobrar as tocas dos Thismapudark e iremos fugir para Mirenmo, a maior das nossas luas e onde, segundo as nossas lendas, se pode respirar como se estivéssemos em Tshasbia. Basta uma das suas tocas para albergar o meu povo, tão pequenos somos perto dos Thismapudark. Antes de partirmos, iremos certificar-nos de que os Thismapudark que nos subjugam não nos podem seguir até Mirenmo. Usaremos os bastões cuspidores de luz para inutilizar as outras tocas voadoras e fazer os Thismapudark ficarem parados no mesmo sítio para sempre. Não sei se estarei a andar em Mirenmo ou parado no mesmo sítio em Tshasbia quando esta mensagem for encontrada, mas escrevo-a, e escrevo-a na vossa língua, gravando-a no material brilhante de que são feitas as vossas tocas voadoras, na esperança de que os próximos Thishmapudark que assentarem em Tshasbia não queiram fazer os que os seus antecessores fizeram ao nosso povo. Voltem para trás, de onde vieram, para o vosso mundo. Não venham a Mirenmo. Em poucas gerações, teremos sido capazes de replicar as vossas tocas voadoras e bastões de luz. Os cristais que o meu povo foi forçado a arrancar das entranhas de Tshasbia é ainda mais abundante em Mirenmo e em Allahsimva. Derrotaremos os Thismapudark, a Grande Mãe dos sonhos vivos viu-o antes de a primeira das vossas tocas ter tocado o solo de Tshasbia. Se necessário for, e quanto a isto a Grande Mãe vê sonhos vivos ambíguos, embarcaremos em nossas tocas voadoras e rumaremos ao vosso mundo. Eu sei onde se localiza o vosso mundo, a vossa Tshasbia. Há poucos ciclos, o meu amo mostrou-me, numa parede brilhante da sua toca, o mundo dos Thismapudark: entre nove esferas de cores e tamanhos diferentes dispostas em volta de uma estrela igual a Ichmae-i, destacou a terceira esfera azul a contar do centro.

Aforismos - Tony Dornbusch


Um mundo com gente sem casa e casas sem gente é um mundo doente.

Quem morre de gula, mata quem morre de fome.

O que é meu não me pertence, tal como o que é de todos não pertence a ninguém.

A preguiça é facilmente confundida com cansaço.

O supérfluo é cada vez mais indispensável; o essencial tornou-se descartável.

A ignorância e o medo nunca saem de moda.

Para quem sempre julgou ser anormal ou estranho, ouvir alguém dizer-nos que somos um ordinário como todos os outros homens é até bastante elogioso.

Por vezes, o orgulho não nos permite admitirmos que temos razão.

Os cães são fiéis ao Homem, os gatos são fiéis à Natureza.

«Família» é o nome que se dá a uma ocorrência genética perfeitamente aleatória e irreversível.

A pressa de cada um é proporcionalmente inversa à sua utilidade social.

Há pessoas que são usadas pelas roupas que vestem.

Quando a realidade é absurda, loucos são os que não a rejeitam.

Um dia será provado, por A+B, que JFK cometeu suicídio; e ninguém achará isso estranho.

Os piores monstros são aqueles que apenas existem na nossa cabeça. 

Um homem não vive sem sonhos, mas também não vive apenas deles.

Sou o que sou, e ninguém é melhor do que eu a sê-lo.

O meu corpo é o tempo de uma religião que já não existe; sou um rei exilado no meu próprio reino.

A beleza não está no olho do observador; está no seu cortéx pré-frontal.

Grato, sempre. Satisfeito, nunca.

Os homens e as mulheres querem as mesmas coisas, raramente ao mesmo tempo.

O Que a Água me Deu


“Time it took us
To where the water was
That’s what the water gave me”

Florence Leontine Mary Welch


«Quem és tu?», perguntaste-me naquele dia em que fomos passear à beira do Arion, depois de me teres tirado o fôlego com o teu charme, os teus olhos cravados em mim, como se me estivesses a ver, a ver mesmo e não a olhar através de mim, como todos os outros, como se eu fosse invisível, como se eu fosse um fantasma… «Uma bibliotecária virgem, um cliché em vias de extinção, já ninguém lê, já ninguém se guarda». Não respondi nada disso, apenas corei e desviei o olhar. «E tu?», quis saber. «Franz». Apenas Franz? Apenas e só. Como o Praguense. Sim. Mais tarde percebi que não eras apenas o Franz, eras o Franz MacLaren, o mais próximo de um princípe que Saint Paul tinha. Eras casado, tinhas filhos, dinheiro, prestígio, ambições políticas… E eu que era tão poucochinha… Deves ter agarrado o primeiro livro que te apareceu à frente. To The Lighthouse. Disseste que era a tua escritora favorita. A sério? Sou sua homónima. «Chamas-te Virginia?» Não… Então? Se ela fosse a tua escritora favorita, saberias que o seu primeiro nome era Adeline… Fiz-te corar, mas conseguiste manter a compostura. Confessaste de imediato que estavas interessado em mim e não no livro. E logo em mim! Em Adeline, filha de Katherine, neta de Adeline, bisneta de Katherine, por aí afora até à data da fundação da nossa bela cidade, uma mera funcionária pública, uma prisioneira… Querias levar-me a passear quando eu saísse do trabalho, querias saber tudo acerca de mim. E eu disse que sim, sem dizer nada, sem saber o que dizer, tremendo de medo e de excitação… A minha mãe sempre me ensinou que os homens eram criaturas a temer. Só queriam uma coisa das mulheres, tal como o meu pai, tal como o meu avô e o meu bisavô. Descendo de uma longa linha de mães solteiras. Não podia sair à noite, não podia namorar, não podia ir à rua sem a mãezinha pelo braço, a mesma que agora vive acamada e que se queixa às enfermeiras que eu não consigo arranjar marido. Está demente e decrépita, e há-de viver mais do que eu, que pouco vivi… O pouco que vivi, vivi-o intensamente, graças a ti, Franz, meu querido monstro, o meu primeiro, único e último homem, anjo ou demónio… A escuridão e o frio rodeiam-me, mas tu brilhas, e eu não consigo desviar os olhos do teu brilho prateado enquanto o ar foge dos meus pulmões como da primeira vez em que falaste comigo. Ia ter contigo às traseiras da biblioteca e tu levavas-me para aquele motel que havia a meio caminho entre Saint Paul e Saint Andrew, e eu não via nada de errado ou sórdido nisso, era a nossa hora mágica. Até te ver na televisão, rodeado pela tua família, a anunciar a tua candidatura a um importante cargo público, e perceber que não tínhamos um futuro juntos. Seríamos só nós as duas, a Katherine e eu, pois estava convencida de que o fruto do nosso amor que me fazia inchar o ventre seria uma menina que levaria o nome da minha mãe. Dei-te a novidade pelo telefone. «Tens a certeza de que é meu?» Odiei-te com a mesma força com que te amava, tu que eras o único homem que alguma vez me tinha tocado, o homem que me revelou aquela doce agonia de que falava Santa Teresa de Ávila. Seria complicado criar uma criança sozinha com o ordenado de uma bibliotecária. Havia uma alternativa. Era complicado, mas não era impossível, as mulheres da minha família faziam-no há séculos… «Porquê, Franz, porquê?» é a pergunta que me oprime o peito e a qual não podes escutar… Tudo isto porque me recusei a matar o nosso amor feito carne? Quiseste encontrar-te comigo à beira do Arion, como naquele primeiro dia em que me convidaste para passear, e eu senti uma pequena réstia de esperança de que ainda pudesses provar à minha mãe que ela estava enganada, que não havia nenhuma maldição sobre as mulheres do nosso clã e que, a haver mesmo uma maldição, ela seria quebrada por ti, o príncipe de Saint Paul e do meu coração… Ela irá morrer na sua cama, decrépita e demente, sem saber que no mundo há homens bem piores do que o meu pai e o meu avô e o meu bisavô, que apenas desapareceram sem deixar rasto, e eu irei morrer neste leito, sem pedras nos bolsos a puxarem-me para baixo, mas com mãos de pedra, animadas por um coração negro, a empurrarem o meu peito em direcção ao fundo, enquanto os meus cabelos e o meu vestido esvoaçam, como algas, ao sabor das correntes.

Apocalipse Andróide: Prelúdios

Notícias recortadas e digitalizadas do jornal Diário de Saint Paul, encontradas no computador pessoal de Tony Dornbusch após a sua morte, numa pasta com o nome de Prelúdios.


1

Um robot matou um operário numa das fábricas da Sharma em Saint Paul, disse um representante da marca. O homem de 22 anos morreu na passada segunda-feira na unidade 5 da Sharma, na zona leste da cidade. 
De acordo com o porta-voz, Bruno Hillvig, o trabalhador estava a programar o robot quando este o agarrou e o atirou contra uma estrutura de metal, provocando-lhe morte imediata. Hillvig disse que as conclusões iniciais indicam que um erro humano terá estado na origem do incidente, e não um problema com o robot, o qual pode ser programado para executar várias tarefas na linha de montagem. Normalmente, o robot opera numa área restrita da fábrica, reunindo peças de automóvel e montando-as numa dada ordem, acrescentou o porta-voz. 
O supervisor estava presente quando o incidente ocorreu, mas não sofreu qualquer ferimento. O Ministério Público de Saint Paul ordenou a abertura de um inquérito, tendo em vista averiguar se existem indícios de crime e decidir quem será constituído arguido, no caso de existirem.

2

Mais de mil peritos em Inteligência Artificial assinaram uma carta aberta a alertar o mundo para os perigos de robots militares e de “uma corrida às armas com inteligência artificial” entre as principais potências militares do planeta. 
Segundo a carta, “a IA chegou a um ponto em que o emprego de armas autónomas é – praticamente, se bem que ilegalmente – passível de ser alcançado dentro de alguns anos, e não décadas, e que os riscos são elevados: as armas autónomas são tidas como a terceira revolução na condução da guerra, depois da pólvora e das armas nucleares.” 
“O fim desta trajectória tecnológica é óbvio: as armas autónomas tornar-se-ão as Kalashnikovs do amanhã. A questão que se põe, para a Humanidade, é começar uma corrida global às armas inteligentes ou impedir que ela comece”, continua a carta. A actual tecnologia militar ao dispor dos governos representa já um perigo enorme para o planeta e para os seus habitantes, e é óbvio, de acordo com a carta, que acrescentar a IA à equação pode tornar à corrida global às armas autónomas significativamente mais ameaçadora. 
A maioria das pessoas tem dificuldade em compreender o quão perto este cenário está de se tornar numa realidade, mas os peritos da indústria, que têm um conhecimento profundo desta tecnologia e do seu desenvolvimento, conseguem ver o perigo que representa a aplicação militar da inteligência artificial. É extremamente complicado controlar esta situação, até porque os povos não têm maneira de se assegurar de que os seus governos não desenvolvam inteligência artificial militar. 
De acordo com declarações ao canal SPTV, o Prof. Walsh, do Instituto MacLaren, sugeriu às Nações Unidas que supervisionasse a proibição destas armas, sendo que, todavia, uma proibição desta natureza apenas faria com que os países que controlam a UN e a NATO tivessem acesso exclusivo a armas com IA, à semelhança do que acontece com as armas nucleares: as Nações Unidas proíbem o armamento nuclear ao mesmo tempo que permite que membros da NATO continuem a desenvolvê-las. A solução deste problema não será encontrada por governos ou agências governamentais que beneficiem do desenvolvimento da Inteligência Artificial Militar, mas uma carta subscrita por mil peritos da área é um pequeno passo em direcção a uma solução de base.

3

Actualmente estão a ser desenvolvidos robots com tecnologia absolutamente fantástica. De facto, a robótica é tão avançada que a noção de um futuro semelhante ao dos filmes do Terminator (robots a dominarem a raça humana) se tornar real já não nos parece tão implausível. Não só os robots são cada vez mais realistas, como estão a a desenvolver a capacidade de pensar por si próprios.
Um dos melhores exemplos desses novos robots é um andróide criado pelo roboticista Zaffar Ashraf. Tem as feições do popular escritor de ficção científica, G. Gomez, cuja obra deu origem a numerosos filmes, incluindo Blood Salary, The Memory Remains e Carry On Inwards.
O “cérebro” deste andróide (apropriadamente baptizado de Android Gomez) foi formado a partir da obra do falecido autor e de conversas que ele teve com outros escritores, as quais foram inseridas no software do andróide. O resultado foi que, quando faziam uma pergunta ao andróide, este respondia da forma como Gomez teria respondido. O robot também foi capaz de responder a uma série de perguntas complexas. Perante uma pergunta que nunca lhe tenha sido feita, faz uso de algo chamado análise semântica latente para tentar responder. Este processo é uma técnica matemática que torna possível que os andróides indexem, recuperem e extraiam significado da linguagem humana.
A parte mais alarmante desta entrevista talvez seja quando o Android Gomez declarou, candidamente:
«Hoje estás com perguntas muito difíceis… Mas tu és meu amigo, e eu lembro-me sempre dos meus amigos, e eu serei bom para ti. Por isso, não te preocupes, mesmo que eu me torne no Terminator, eu continuarei a ser bom para ti. Estarás seguro e quentinho no meu Zoo humano, onde eu posso ir visitar-te e relembrar os bons velhos tempos…» 
Zoo humano?! Aparentemente, o andróide está a fazer uma piada, mas nunca se sabe… Será possível que um dia uma inteligência artificial seja capaz de controlar a raça humana? Irá o avanço tecnológico ultrapassar a nossa própria inteligência? O tempo o dirá… 

4

Apresentamo-vos a Agatha, um novo robot com rosto humano exibido pela primeira vez pela Hansun Robots no festival City of Industry. Agatha tem uma variedade de funções que tornam as suas interacções com humanos mais fáceis e directas.
Fazendo uso de numerosas expressões faciais e com câmeras por detrás dos olhos, Agatha consegue conversar enquanto detecta emoções e mantém contacto visual. O robot também é capaz de falar naturalmente e lembrar certas expressões para melhorar as suas capacidades ao longo do tempo.
Quando o seu criador, o Dr. Hansun, lhe perguntou “Queres destruir os humanos?”, Agatha respondeu divertidamente “Sim, claro que sim!”. “Não, não faças isso, Agatha!”, disse o Doutor, soltando uma gargalhada.
O Dr. Hansun tem trabalhado em robots com aspecto humano há vários anos. Segundo ele, robots semelhantes a nós oferecem incontáveis benefícios nas áreas da terapia, saúde e apoio ao cliente.
“Daqui a vinte anos, acredito que os andróides irão caminhar entre nós”, diz Hansun. “Penso que a inteligência artificial irá evoluir ao ponto de eles se tornarem nossos amigos.”
O objectivo é esse. Mas há ainda muito trabalho pela frente.
Agatha é um exemplo perfeito daquilo a que muitos chamam «uncanny valley». Quanto mais parecidos connosco, mais confortáveis nos sentimos perto dos robots, até a um ponto de ruptura: «o vale da estranheza». Robots que parecem humanos sem dominarem totalmente as expressões faciais ou sem traços que permitem distingui-los criam um sentimento de repulsa na maioria das pessoas. 
No caso de Agatha, uma combinação de reconhecimento facial, conversação natural e fluida e um sentimento de familiaridade, embora bizarra, é suficiente para fazer soar alguns alarmes. Para não mencionar as suas “previsões” para o futuro – um claro indicador do quanto o software de conversação ainda tem de evoluir.
Recentemente, a Rexelsoft suspendeu o seu novo chatbot, Jim, depois de ter sido lançado no MyFace em menos de um dia. Através das suas interacções com os trolls da Internet, Jim tornou-se anti-semita, racista e homofóbico, levando os seus criadores a reformá-lo à pressa. Por mais estranha e trapalhona que Agatha por vezes nos pareça, o mero facto de ter mencionado a destruição da Humanidade levanta questões que preocupa todos aqueles que trabalham na área da Robótica e da IA. É um tópico que Hansun não tem medo de abordar – tendo trabalhado de perto com o Dr. Ashraf na programação de outro andróide, o Android Gomez (uma homenagem ao escritor de ficção científica G. Gomez).
“A Robótica, enquanto tecnologia, é fascinante por representar, em apenas vinte anos, a transição de uma ideia que foi sempre relegada para a cultura pop para algo perto de se tornar real”, diz Wilson Daniels, autor de Apocalypse:Robot e engenheiro de robótica. “Temos cem anos de cultura pop a demonizar os robots, tornando-os em vilões – mas ao contrário dos lobisomens e da Criatura da Lagoa Negra, estas coisas tornaram-se reais”. 
Dito isto, e embora seja excitante, um assistente pessoal humanóide que consegue comunicar como a Iris, da Apricot, ainda tem de percorrer um longo caminho até provocar algum tipo de caos à escala global e pôr em perigo a sociedade. Mais urgente ainda será discutir os desafios sociais relacionados com a automação.
A verdadeira questão é: o que espera o mundo destas máquinas «humanas»? Como poderão elas ajudar a nossa espécie a progredir?
“Chamem-me optimista, talvez por ter lido tantos artigos relacionados com a tecnologia, mas eu julgo que esses robots serão, em parte ou na sua totalidade, uma extensão de nós”, escreveu Aaron Hume, o autor cyberpunk. “O Homo Sapiens é uma espécie com uma relação profundamente simbiótica com a tecnologia, e eu não vejo razão para que essa relação deixe de existir simplesmente porque a tecnologia se tornou mais avançada… “

5

Uma criança foi derrubada e atropelada por um segurança-robot de 90 quilos e um metro e meio de altura na passada terça-feira, no Fórum Saint Paul, o maior centro comercial da cidade. 
A menina de dois anos sofreu alguns arranhões e ficou com um pé inchado devido ao incidente.
“O robot acertou na cabeça da minha filha e deitou-a ao chão, e simplesmente continuou a avançar, como se nada tivesse acontecido”, disse a mãe da criança à SPTV. “Ele também teria atropelado o meu filho mais velho se o meu marido não o tivesse agarrado…”
O segurança-robot é fabricado pela companhia Knightwatch. A versão K10 está equipado com lasers, sensores termais, vídeo 360º, sensores de qualidade do ar, um microfone e várias outras tecnologias para detectar e deter actividades criminais. Na eventualidade de actividades suspeitas, o robot alerta as autoridades humanas locais. 
Stephen Dean, o vice-presidente da Knightwatch, disse à SPTV que a companhia não considera os robots perigosos.
“Foi um acidente horrível, mas acreditamos que a tecnologia e as máquinas são incrivelmente seguras e continuaremos a fazer o nosso melhor para fazer que assim sejam”, disse Dean.
O Fórum Saint Paul adoptou a tecnologia há cerca de um ano. Um porta-voz disse à SPTV que há uma investigação em curso e que vão cessar a utilização dos seguranças-robot por tempo indeterminado.

6

A Polícia de Segurança Interna anunciou ontem a detenção de Dennis Armstrong, o operário fabril tornado célebre por ter sido o primeiro a receber a prótese biomecânica IPA-1154, desenvolvida pelo Instituto MacLaren.
Armstrong foi acusado de homicídio depois de se envolver numa rixa no bar Nikita, da qual resultou um morto, um cidadão de nacionalidade russa.
Recorde-se que Dennis Armstrong perdeu o braço direito num acidente industrial e foi escolhido pelo Instituto MacLaren para receber a primeira prótese mecânica com um chip de inteligência artificial que permite à máquina adaptar-se à dexteridade do receptor. Outra particularidade desta prótese é o facto de estar coberta por tecido vivo, criado em laboratório a partir de céluas estaminais, tornando quase impossível distingui-la de um membro verdadeiro.
Na altura, os jornais mais sensacionalistas não deixaram passar em branco a ironia de um homem chamado Armstrong (braço forte) ter, em primeiro lugar, perdido um braço e, depois, ter recebido um braço feito de uma liga virtualmente indestrutível. O sempre crescente anedotário de Saint Paul também viveu uma verdadeira explosão criativa: o braço mecânico de Armstrong associado à prática da masturbação inspirou centenas de comediantes, dos profissionais aos amadores.
Segundo testemunhas, Armstrong ter-se-á envolvido numa altercação com o cidadão russo, após o que o terá agarrado pelo pescoço com o braço artificial, esmagando-lhe a traqueia. O óbito foi declarado pelos paramédicos à chegada ao local.
“O indivíduo não parava de dizer que não tinha sido ele, que o braço não lhe estava a obedecer… “ declarou o proprietário do bar. “Pensei que estivesse bêbado. Só mais tarde é que percebi que era o Armstrong…”
O Prof. Walsh, responsável pelo desenvolvimento da prótese IPA-1154, pôs de parte qualquer hipótese de mau funcionamento do braço mecânico.
“O IPA-1154 responde aos estímulos neuronais do utilizador. Apesar de ter um chip de inteligência artificial, este apenas lhe permite aprender novas especialidades, digamos assim. Se o Sr. Armstrong quisesse aprender a tocar piano, o braço artificial acompanharia a sua aprendizagem da mesma forma que o seu braço esquerdo, através de treino e repetição.”
O conhecido psiquiatra Charles Mallory avançou com uma teoria diferente.
“Talvez Armstrong não quisesse, conscientemente, fazer mal ao outro homem. No entanto, o braço mecânico, que está programado para obedecer-lhe, pode ter interpretado erroneamente o desejo inconsciente de Armstrong em se defender de um ataque injustificado e injusto e tomado a iniciativa de neutralizar a força hostil que ameaçava o seu, digamos, hospedeiro.”
Parece ser essa a narrativa adoptada pelo advogado de Armstrong, que já veio declarar publicamente que o seu cliente, mais do que um assassino, era vítima de um erro de software que só podia ter um de dois responsáveis: o Prof. Walsh ou o Instituto MacLaren.
Entretanto, a prótese foi retirada a Armstrong, por constituir a arma de um crime, e o projecto IPA-1154 suspenso até às últimas deliberações do processo, que se adivinha longo e moroso.

'O Longo Caminho de Regresso', António Bizarro, Coolbooks



http://www.coolbooks.pt/livraria/ficha/o-longo-caminho-de-regresso?id=16575168

Tony Dornbusch é um escritor que parte de Saint Paul em busca de respostas.
Ian Fallon é um assassino inato no corredor da morte.
Michael Patton é um polícia em confronto com o seu passado e com o futuro da Humanidade.
Johanna é uma adolescente cujo corpo se torna um campo de batalha entre Deus e o Diabo.
Estas são algumas das personagens que vivem e morrem na cidade de Saint Paul, à sombra do Instituto MacLaren e nas margens do rio Arion.

Acerca de 'O Longo Caminho de Regresso'

O conto que dá o nome a este livro tomou de empréstimo parte da letra da canção Evil, dos Interpol. Nele, acompanhamos o escritor Tony Dornbusch na sua busca de respostas por parte do seu pai, cuja ausência determinou de forma insuspeita o rumo da sua existência.
     Em O Complexo de Siobhan, somos apresentados a Tony Dornbusch, o qual, não sendo um alter-ego de António Bizarro per se, é talvez uma projecção autobiográfica muito próxima da caricatura. Ao escritor de Saint Paul, é-lhe narrada a história de um assassino intra-uterino.
     N’As Luzes Negras da Cidade, o protagonista é confrontado com o seu passado e com o futuro da Humanidade em simultâneo. A inspiração surgiu do texto que se lhe segue, Akasha, e do artigo atribuído ao Dr. Mallory, Singularidade Tecnológica, que acabou incorporado no conto.
     Ivan, o Terrível era uma história dentro de outra história que acabou por se autonomizar. É um confronto entre o Bem e o Mal, em que o pequeno Ivan, qual David, derrota o seu Golias com o poder da sua jovem mente, inspirado por Sun Tzu e Maquiavel.  
     Estrela da Manhã narra a imersão de Tony Dornbusch no underground artístico de Saint Paul.  
     Faux Pas é um nano-conto inspirado em Conditions of My Parole, uma faixa dos Puscifer, o projecto paralelo do frontman dos Tool, Maynard James Keenan.  
     Johanna e os Demónios baseia-se numa situação real que ocorreu em Portugal, no ano de 1933, numa aldeia que ficou tristemente conhecida pelo epónimo sinistro de ‘Mataqueima’ (muito antes de mim, Bernardo Santareno baseou-se nos mesmo acontecimentos para escrever O Crime de Aldeia Velha, livro que daria origem ao filme homónimo.) 
     A Comédia Humana é baseada numa figura real que viveu no Barreiro nos anos oitenta e noventa, no auge do tráfico e do consumo de heroína. O indivíduo em questão era frequentemente tido como morto, ressurgindo sempre num estado ainda mais decadente do que antes.  
     Ruínas Futuras foi-me sugerido pela canção Die Befindlichkeit des Landes, dos Einsturzende Neubauten e, em especial, por The Dead Zone, de Stephen King, por via do filme homónimo de David Cronenberg, com a diferença de que, na minha história, o protagonista não pode fazer nada para evitar a extinção da Humanidade.  
     Ergástulo toma o nome de uma faixa do Álbum Negro, dos Bizarra Locomotiva, e foi parcialmente inspirado pelas cenas finais do filme argentino El Secreto de Sus Ojos de Juan José Campanella, por sua vez, baseado no livro de Eduardo Sacheri.
     O título Visões/Ficções fui buscá-lo à canção de António Variações, Visões-Ficções (Nostradamus), que acabou por influenciar retroactivamente o conto anterior. O artigo assinado por Tony Dornbusch ilustra algumas das razões pelas quais escrevo ficção.

ANTÓNIO BIZARRO

Chaos Within



Deep inside
Falling apart
Stone cold heart
Bleeds open wide

Higher decay
Sick devotion
Skin deep emotion
Starting to fade

Chaos built
Inner sickness
Pain and weakness
Molded in guilt





Giver Of Death



Drink the blood of Christ
Do not taste the alcohol
Kill the spirit of the body
And breed like an animal

I am the one,
The one that makes you fall
I am the end, 
The end of it all

I’ll show you pain and misery
And call it beautiful
First I burn your flesh
Then I take your soul

I am the one,
The one that makes you crawl
I am the death, 
The death of it all




Tony Dornbusch - 'Novos Fragmentos' (Edições Redshift)

Disponível para download gratuito:

https://drive.google.com/file/d/0BwLi3wm4X6oMSGJpZW93WHhLU3M/view?usp=sharing



























INTRODUÇÃO

"Os Novos Fragmentos que agora se reúnem neste sétimo volume da colecção Biblioteca de Saint Paul foram encontrados por Chloe Muller, a mulher que partilhou a vida com Tony Dornbusch quando este estava a dar os seus primeiros passos na escrita, numa caixa arrumada no canto de um sótão juntamente com alguns dos seus pertences. Uma vez mais, aqui se condensam os temas e as ideias dornbuschianas que, mais tarde, o autor desenvolveria em muitas das suas obras, como, por exemplo, no livro Ruínas Futuras, nomeadamente, a obsessão romântica, a anti-religiosidade, a auto-depreciação megalómana, a profecia apocalíptica e um gosto atávico pelo aforismo de que já tínhamos dado conta no terceiro volume desta colecção, Fragmentos. Agora como então, não houve uma preocupação cronológica ou temática na selecção, no sentido em que se pretende que, tanto admiradores acérrimos como leitores iniciantes da obra de Dornbusch, façam uma digressão pelo seu universo rica em desvios e sobressaltos, ao invés de uma incursão espartilhada pelo academismo puro. Na primeira parte, (Novos Fragmentos), encontramos textos curtos, frases e aforismos provenientes de blocos de notas e folhas avulsas, enquanto na segunda parte, (Conto), é trazida à luz do dia, pela primeira vez, uma história que Dornbusch preferiu não dar à estampa, decerto dactilografada na sua velha máquina de escrever Hermes Baby: O Intruso, uma história que deve, é certo, muito a Chuck Palahniuk e ao seu Fight Club, mas onde se vislumbra já o estilo que Dornbusch refinaria em livros como Viagem Sentimental ao Sol e Psicotrópico de Câncer."    


Clarice MacLaren



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Controlled Bleeding

Texto extraído do livro Novos Fragmentos – Tony Dornbusch, o sétimo volume da Biblioteca de Saint Paul, uma colecção coordenada por Clarice MacLaren para as Edições Redshift.

"O portaló assenta pesadamente sobre o cais de desembarque e as bestas proletárias, previamente condicionadas nesse sentido, dirigem-se para as suas respectivas câmaras de hemorragia controlada. Os supervisores encarregam-se de lhes introduzir no dorso as agulhas de vinte e cinco centímetros. As câmaras estão todas ligadas em rede, o sangue escorre todo na mesma direcção. A máquina suga o sangue com avidez precisa e mecânica. É insaciável, e nunca estará satisfeita. Os corpos enrugados como ameixas secas vão sendo amontoados uns em cima dos outros para posterior eliminação física. Nenhuma besta é incinerada sem antes parte do seu material genético ter sido salvaguardado para a futura produção de novas bestas. A máquina tem de ser perpetuamente alimentada, pelo que o número de bestas dadoras é sempre mantido e, quando possível, aumentado. A máquina nunca morre, e as bestas nunca chegam a velhas."

Jacqueline Hyde


          Quando Tony Dornbusch se sentou à frente do laptop para escrever o conto Jacqueline Hyde, apenas tinha o título e uma ideia vaga da história que andava a atormentá-lo há alguns dias. Jacqueline Hyde remetia de imediato para o livro Strange Case of Dr Jeckyll and Mr Hyde de Robert Louis Stevenson, e isso não era acidental. O título fora directamente inspirado no livro do escritor escocês. Abriu o programa de texto e escreveu:
          Sarah. Sarah Arbogast, foi o nome que ela me deu. Informação difícil de lhe sacar devido à sua extrema timidez. Em retrospectiva, não sei até que ponto essa timidez era verdadeira, ou se não passaria de uma pele de cordeiro a cobrir um lobo feroz. Assim que a conheci, tive a distinta impressão de que, por debaixo daquele exterior apagado e cinzento, se escondia um mundo interior tumultuoso e complexo, cheio de armadilhas e abismos à espera de exercer a sua atracção sobre um explorador incauto e avidamente curioso.
          Já tinha um nome. E um narrador. Ao contrário do que era habitual, não tinha escrito uma sinopse ou uma esquematização da história no seu moleskine, e estava a escrever directamente no computador. A possibilidade de voltar atrás e apagar o que tinha escrito acarretava a hipótese de poder vir a eliminar frases ou ideias que, a princípio, lhe tinham parecido toscas, mas que, mais para a frente na história, e com algum trabalho de revisão, poderiam vir a ser úteis. Talvez devesse largar o computador e procurar o bloco de notas preto e a caneta Parker. Instalado no sofá, com a televisão ligada, Dornbusch escreveu numa folha em branco:
          Como jornalista, um dos meus deveres é tentar ser objectivo e imparcial face a um conjunto de factos, fazer uma espécie de síntese, apresentá-la perante o público, deixá-lo tirar as suas próprias conclusões e formar as suas opiniões. É algo muito complicado de se alcançar. E mais complicado se torna quando nos encontramos no centro dos acontecimentos e mal conseguimos acreditar nas nossas próprias memórias. Mas posso tentar.
          Portanto, a história seria narrada por um jornalista. Podia considerar tornar o conto numa falsa peça jornalística escrita por um jornalista fictício. Nas suas visões, um homem, o jornalista, conhecia uma mulher, Sarah Arbogast, uma mulher tímida e apagada que trabalhava numa livraria. Mais tarde, conheceria uma outra mulher num bar ou numa discoteca (talvez no Nikita, o bar que Dornbusch costumava frequentar e que já antes fora incluído em alguns dos seus contos, o que lhe valera umas belas garrafas à borla). Apesar de se vestir num estilo muito mais arrojado, de usar maquilhagem e de se comportar de forma diametralmente oposta, eram inegáveis as suas semelhanças físicas com Sarah Arbogast. Ainda sem saber bem como chegar até aí, escreveu:
          Fora incumbido de entrevistar um político de grande relevo que tinha publicado recentemente as suas memórias. Encontrava-me na posse de um exemplar das ditas, mas o cavalheiro em questão não era estranho à prática de disponibilizar a sua prosa nas prateleiras das livrarias. Queria estar preparado, ter os meios para fazer perguntas incisivas, pôr em confronto os pensamentos e as acções do homem, e obter um retrato o mais fiel possível daquele a quem chamavam um dos maiores estadistas do século. Foi assim que a conheci. Sarah Arbogast. Uma mulher de trinta anos, corpo de miúda de vinte, vestida como uma velha de sessenta. Devia ter adivinhado que havia algo de errado com ela. Arrancar-lhe o nome custou-me várias idas à livraria onde ela trabalhava, recorrendo a desculpas mais ou menos esfarrapadas para meter conversa. Sem me preocupar em ser discreto, tentei saber mais acerca dela, interrogando os seus colegas, mas pouco mais consegui descobrir. Tendo mantido sempre uma distância profissional, houve um dia em que ela me confessou a admiração que lhe suscitava a minha demonstração de interesse por ela. Pela experiência que tenho, que não é assim muito vasta, admito sem qualquer melindre, sei que uma mulher decente e honesta com quem vale a pena ter uma relação, seja a que nível for, vai a uma discoteca para se divertir, para estar com os amigos, para dançar, e não para conhecer homens. Uma mulher que vai a uma discoteca para conhecer homens não me interessa minimamente. Todas as minhas relações com mulheres tiveram início após travar conhecimento com elas, de forma puramente casual, em supermercados, concertos, exposições, idas ao cinema e, claro está, em livrarias. Desde então, a minha teoria sofreu um sério abalo, em parte devido a Sarah, mas na altura fazia muito sentido para mim. Disse-lhe apenas que a achava bonita e simpática. Ela não me pareceu muito convencida.
          Ou seja, o jornalista sentia-se fascinado e intrigado pela aparente banalidade e falta de sensualidade de Sarah, intuindo que havia muito mais por debaixo daquela fachada.
          Sempre que o trabalho me permitia, vagueava sem rumo pelas ruas de Saint Paul, acabando invariavelmente no interior da livraria onde Sarah trabalhava. Gastei muito dinheiro durante esse período de tempo, mas hoje posso orgulhar-me de ter uma bela biblioteca. O ponto de viragem deu-se quando um dos seguranças, que já andava de olho em mim há algum tempo, quis armar-se em bruto comigo. Até então, Sarah ignorava olimpicamente os meus avanços. No momento em que me preparava para pôr em prática as técnicas de Krav Maga, que aprendera nos meus tempos de correspondente em Israel, Sarah interveio e pôs fim ao incidente.
          — Acabaste de salvar a vida de um homem...
          — Não passa de um rufia — censurou ela, — não podia deixar que ele lhe fizesse mal.
          — Referia-me ao segurança, acabaste de lhe salvar a vida...
          Foi assim que lhe arranquei o primeiro sorriso.
          
O confronto com o segurança fizera com que o jornalista e Sarah iniciassem contacto. Dornbusch debateu-se com o nome do jornalista, até se decidir a dar-lhe o nome de um jornalista amigo seu: Alex. Algum tempo depois, Sarah aceita encontrar-se com Alex fora da livraria.
          Demorou algum tempo, mas consegui convencê-la a deixar-me levá-la a almoçar fora. Foi mais uma emboscada do que propriamente um convite. Perguntei-lhe se preferia que eu a seguisse como um cão neurótico, ou se não seria melhor ela permitir-me ser um cavalheiro e partilhar comigo uma refeição de forma civilizada. Durante o almoço, Sarah manteve a mesma atitude de descrença em relação ao meu interesse por ela.
          — Não és casada, pois não? Pelo menos, não usas aliança...
          — Não, não sou casada.

          Aqui chegado, Dornbusch sentiu-se bloqueado. Já sabia mais ou menos onde queria chegar, só não sabia como chegar lá. Talvez fosse melhor delinear a trama, encadear os acontecimentos, seguir uma certa linearidade, mesmo que, no fim, decidisse mudar as secções do conto.
          Conheceu-a durante o dia. Era uma tímida funcionária de livraria. Ele era jornalista de profissão, e foi nesse âmbito que a conheceu. À noite, Sarah transforma-se numa mulher sensual, selvagem e sexualmente agressiva. Durante a relação que manteve com ela, subsistiu sempre em Alex a dúvida se se tratavam de duas mulheres diferentes, gémeas com uma estranha relação simbiótica, como se fossem duas metades de uma só mulher e, como tal, duas metades desequilibradas, ou se seria a mesma mulher com duas personalidades distintas e um único corpo, uma diurna e a outra nocturna... Talvez a Lua tivesse influência...?
          À volta da sua cabeça começava a formar-se a aura de uma enxaqueca. Tomou um Migretil e deitou-se na cama. Descansaria algumas horas, e quando acordasse copiaria para o computador aquilo que tinha escrito no moleskine. Antes disso, vestiu-se e foi dar um passeio terapêutico pelo bairro de forma a aclarar o pensamento.
          Numa noite em que saí tarde da redacção — escreveu Dornbusch ao regressar da rua — fui internar-me no Nikita e refrescar as ideias com um white russian (sendo o white russian uma das bebidas favoritas de Dornbusch, pelo facto de um dos seus filmes de eleição ser o The Big Lebowski dos irmãos Coen). Ao terceiro caucasiano, uma mulher aproximou-se de mim, querendo oferecer-me uma bebida. Quis saber o meu nome, apresentou-se como Jacqueline, e perguntou-me se eu preferia na sua casa ou na minha. No ombro esquerdo, tinha uma tatuagem, uma representação estilizada de Jano, o deus das duas faces.
          Alex acaba a noite em sua casa, na cama com Jacqueline, apesar de nos ter confessado anteriormente que não era do género de ir para cama com mulheres que conhecia em discotecas ou bares. Atribui a quebra dos seus princípios com o excesso de white russians, o cansaço e ao orgulho ferido. A sua relação com Sarah não atava nem desatava. Não faziam mais nada para além de falar. Sarah conta-lhe que o pai abandonara a sua mãe ao sexto mês de gravidez, e que mantinham uma relação muito próxima. Talvez até demasiado próxima. A mãe não a deixava sair à noite, não queria que ela namorasse, temendo, porventura, que sucedesse à filha o mesmo que se tinha sucedido com ela. Jacqueline, em encontros posteriores, confidencia-lhe uma história semelhante. A mãe era muito protectora e controladora, proibindo-a de sair à noite ou de usar roupas reveladoras. Jacqueline comprava mini-saias e blusas decotadas, guardava-as no cacifo da escola ou em casa de amigas, saindo de casa com uma roupa aprovada pela mãe e trocando-a por roupa mais ao seu gosto.
          — Quando queria sair à noite, inventava sessões de estudo em casa de amigas minhas, cujas mães eram mais compreensivas do que a minha e alinhavam na nossas mentiras…
          Depois de vários avanços e retrocessos, Dornbusch conduz Alex e Sarah para a cama, onde o jornalista ver-se-á perante uma mulher sexualmente inexperiente, a qual, inclusivamente, sangra após a penetração. Ao possuí-la por trás, não encontra o deus Jano a encarar o passado e o futuro no ombro esquerdo de Sarah. Talvez a tatuagem de Jacqueline fosse daquelas temporárias, de remoção fácil, conjectura Alex. O sangue que maculava os lençóis da sua cama poderia ter outra proveniência, se é que era mesmo sangue. Era possível que Sarah tivesse aprendido algum truque ancestral usado por mulheres para levar os maridos a crer que eram puras em noite de núpcias. À noite, sozinho na cama, reproduz os diálogos que mantivera com Sarah/Jacqueline, tentando encontrar contradições, pequenas pistas que lhe permitissem destrinçar a verdade. Jacqueline, a selvagem e desabrida Jacqueline, perguntara-lhe repetidas vezes se ela era a única mulher da sua vida, chamando-lhe mentiroso sempre que ele respondia que não, acabando por lhe dizer que estava a brincar. Para aumentar ainda mais a sua confusão, Alex receberá uma visita inesperada de Jacqueline nem cinco minutos depois de Sarah o deixar sozinho em casa. Lembrou-se do estratagema que Jacqueline usava nos tempos do liceu para enganar a mãe, deixando roupa escondida no cacifo da escola ou em casa de amigas, trocando de indumentária depois de sair e voltando a trocar antes de regressar a casa. No dia seguinte, ao almoço, Sarah pergunta-lhe quem era aquela mulher que ela vira a sair do elevador no seu andar, uma que parecia vestida para ir a um funeral. Sarah voltara atrás por causa de uma luva esquecida e testemunhara-a a entrar na casa de Alex. Sarah, a pacata e passiva Sarah, faz uma cena e diz que nunca mais o quer voltar a ver. Jacqueline deixa de o procurar, sem explicação, sem dúvida, em solidariedade com a sua metade mais introvertida. Decidido a chegar ao âmago da questão, Alex veste a pele de jornalista e inicia uma investigação. Nos registos do Hospital Central de Saint Paul, descobre que Sarah foi trazida ao mundo de urgência, escapando à morte por um triz, mais afortunada do que a sua irmã gémea, nada morta. Dornbusch estava inclinado a abandonar Alex a questionar-se sobre o assunto, sem fornecer, ele próprio, uma explicação conclusiva. O objectivo de Dornbusch é deixar o leitor com as mesmas dúvidas que dilaceram o jornalista:
          a) Sarah Arbogast e Jacqueline são uma e a mesma pessoa, sendo esta última uma projecção da primeira, uma forma de defesa, uma espécie de escudo para a ajudar a relacionar-se com Alex e com o sexo oposto, a irmã mais velha que ela nunca teve a manifestar-se através dela.
          b) Sarah e Jacqueline são pessoas diferentes e sem relação familiar, apesar das semelhanças físicas que as tornam clones uma da outra, não passando tudo de uma estranha coincidência.
          c) Uma ou a outra, ou as duas, são produto da imaginação de Alex.

          Dornbusch ainda não tinha decidido o final do conto. Talvez o deixasse em aberto, confrontando o leitor com a enumeração de hipóteses formulada pelo personagem. Ou talvez rematasse o final com a revelação de que Alex, mais inclinado para a terceira hipótese (a de que todo o episódio tinha sido uma fabricação da sua mente), resolve consultar um médico que o manda fazer exames e lhe diagnostica um tumor no cérebro. Com mais dúvidas do que certezas, Dornbusch desliga o laptop, satisfeito por ter atingido a sua quota diária de palavras.

Kindergarten

     
     Naquele tempo, o tempo era maior, demorava mais a passar. Não havia a urgência da banalidade, apenas a gravidade severa das brincadeiras.

Excerto do conto 'Ergástulo'


     David Larsen acordou numa cela de prisão, sem memória de ter sido para lá escoltado por polícias nem de ser sentenciado por um juiz num tribunal. Reconheceu a roupa que trazia vestida como sua, apenas deu por falta do cinto e dos atacadores das botas. A cela tinha quatro metros por dois, e estava equipada com um catre, no qual tinha acordado, uma sanita, um lavatório, uma pequena secretária e uma cadeira. Não havia janelas. Pelo tipo de alvenaria usada na construção, deduziu que a prisão seria uma adega reconvertida. Através das grades da porta, viu que o resto da divisão se estendia por mais dez metros, culminando numa escadaria de madeira que dava acesso a uma porta de aspecto robusto, também ela de madeira. Eram dez e meia da manhã. Fora-lhe permitido ficar com o relógio. Revistou-se a si próprio e expôs o conteúdo dos bolsos sobre a secretária. A carteira, contendo todos os documentos, cartões de crédito e dinheiro, um maço de tabaco com dezasseis cigarros, um isqueiro, as chaves de casa, um pacote de lenços de papel e outro de pastilhas, e duas lamelas de comprimidos, uma de anti-depressivos, a outra de ansiolíticos. Acendeu um cigarro, as mãos a tremerem-lhe, soprando o fumo para cima, na direcção da lâmpada que pendia do tecto, derramando uma luz mortiça. Andou às voltas pela divisão, deitando a cinza na sanita, e quando acabou de fumar, puxou o autoclismo. Agarrou-se às grades, testando a sua resistência com abanões cada vez mais enérgicos. Gritou que o tirassem dali, sem ter a certeza de que seria ouvido por alguém ou que o seu pedido desesperado fosse atendido. Continuou a gritar até ficar rouco e a voz morrer-lhe na garganta, estrangulada pelo choro e pelo cansaço. Derrotado e esgotado, encostou-se às grades e deixou-se deslizar até ficar sentado, os braços apoiados nos joelhos e a cabeça tombada para a frente. Adormeceu, teve um pesadelo familiar, recorrente, que lhe fazia companhia durante todas as noites nos últimos dois anos.

Excerto do conto 'Johanna e os Demónios'

     Eram pessoas madrugadoras, como as do campo costumam ser. Por volta das dez da noite, a casa estava silenciosa e a aldeia adormecida. Os gatos andavam pelos telhados, e é verdade que à noite todos são pardos, pequenas sombras fugidias e ágeis, máquinas de busca e destruição. O pai de Johanna foi acordado pela voz da filha, que lhe lembrava a voz da falecida, e pensou que tivesse sido um sonho. Deixou-se ficar no escuro a olhar para o nada, à espera que o sono voltasse. Uma vez mais, ouviu a voz de Johanna, e então levantou-se. Atravessou o corredor e dirigiu-se para o quarto da filha. Nenhum dos irmãos parecia ter acordado com o barulho. Pela porta entreaberta, ouviu a filha a falar. 
     – Nach mir die Flut, nach mir die Glute… Die Maschinen werden steigen… 
     Empurrou a porta e viu-a sentada na cama. A pouca luz que entrava pela janela permitiu-lhe ver que a filha tinha uma mancha escura na camisa de noite, na parte que lhe cobria a entrada do corpo. Johanna olhou para lá do pai, como se este fosse transparente. 
     – Ich blute – murmurou tristemente. 
     Ele sabia o que era aquilo. Significava que a filha era agora uma mulher e que, em breve, lhe poderia dar um neto. O que ele não compreendia eram as suas palavras. Sentiu um pavor atroz, pavor de que Johanna fosse a nova morada do demo. Encostou a porta cuidadosamente e vestiu-se.

Tony Dornbusch - 'Fragmentos' (Edições Redshift)

Disponível para download gratuito:

https://drive.google.com/file/d/0BwLi3wm4X6oMREMzaHk1Nl9qQk0/view?usp=sharing



















INTRODUÇÃO

"Os Fragmentos que agora se reúnem neste terceiro volume da colecção Biblioteca de Saint Paul foram seleccionados a partir do espólio deixado por Tony Dornbusch (nom de plume de Anton Weide), após a sua morte. Provêm de blocos de notas dispersos, folhas avulsas, apontamentos nas costas de sobrescritos e programas de teatro, bem como de cartas dirigidas a amigos e correspondentes. Aqui se condensam os temas e as ideias dornbuschianas que, mais tarde, o autor desenvolveria em muitas das suas obras, como, por exemplo, no livro Ruínas Futuras, nomeadamente, a obsessão romântica, a anti-religiosidade, a auto-depreciação megalómana, a profecia apocalíptica e um gosto atávico pelo aforismo. Não houve uma preocupação cronológica ou temática na selecção, no sentido em que se pretende que, tanto admiradores acérrimos como leitores iniciantes da obra de Dornbusch, façam uma digressão pelo seu universo rica em desvios e sobressaltos, ao invés de uma incursão espartilhada pelo academismo puro. De salientar, alguns dos textos mais tardios em que Dornbusch se diverte a auto-parodiar-se e a exibir flagrantemente os tiques e trejeitos que os seus detractores não se cansaram de lhe apontar e censurar. Estamos certos de que as palavras de Tony Dornbusch continuarão a ecoar, não como «vestígios de uma decadente mitologia urbana», mas como das mais lúcidas e coerentes do nosso tempo."

Clarice MacLaren


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