Acerca de 'O Desejo e Outros Demónios'

O título do livro é uma referência a Del Amor y Otros Demónios, de Garcia Márquez, sendo que, no meu conto, o que move os personagens é o desejo mais do que o amor, pelo menos no sentido em que eu o concebo. As Partes Sagradas foi-me inspirado por Vanity Fair, dos Mr. Bungle, um dos inúmeros projectos paralelos do músico norte-americano Mike Patton, mais conhecido como vocalista dos Faith No More. Na letra desta canção, há uma referência à seita cristã Skoptsy, que existiu na Rússia e na Roménia desde 1711 até meados do século XX. A epígrafe remete para uma canção dos Interpol, C’mere. A crónica Bons Rapazes, atribuída a John Vargas, é uma recordação de infância, uma reencenação inconsciente de Lord of The Flies por um grupo de crianças barreirenses nos anos oitenta. Anima Animus, além de ser um conceito jungiano, é também o nome de um álbum dos The Creatures, a banda de Siouxsie Sioux e Budgie, ambos dos Siouxsie and The Banshees. Tchecov dizia que, quando uma arma aparece no primeiro acto de uma peça, ela será disparada no terceiro. Foi esse o preceito que tentei seguir. O Instituto revela-nos uma criatura baptizada de Berserker mantida em cativeiro no Instituto MacLaren, a qual foi inspirada no Wendigo de Algernon Blackwood, que, por sua vez, inspirou a criação de Ithaqua por parte de August Derleth. The Day The World Went Away, dos Nine Inch Nails, esteve na génese do conto O Dia em que o Mundo se foi Embora. Uma forte constipação, que me roubou o sentido do olfacto e o do paladar, e o efeito da altitude, ouvidos tapados e tonturas, forneceram a matéria-prima. Memento Mori traduz-se por “Lembra-te de que és mortal”. É uma história de fantasmas, sem que nada de fantasmagórico ou assustador ocorra. Reconheço nela ecos das leituras que fiz das Memórias Póstumas de Brás Cubas, do escritor brasileiro Machado de Assis, e do filme Memento, de Christopher Nolan. As duas histórias que compõem Jezebel acabaram por convergir acidentalmente, apesar de terem sido escritas em ocasiões separadas, sendo que fui buscar a história de Cesar e Rakel a uma notícia de jornal. Em A Lei de Thalia, viajamos até uma Saint Paul distópica e pós-apocalíptica onde os criminosos, e em particular os infanticidas, são obrigados a confrontar os familiares das suas vítimas num exercício extremo de justiça restaurativa. Mr. Butterfly foi parcialmente inspirado em M. Butterfly, um filme de 1993 realizado por David Cronenberg e adaptado da peça homónima escrita pelo dramaturgo sino-americano David Henry Hwang, o qual se baseou na história real do diplomata Bernard Boursicot e Shi Pei Pu, um cantor da ópera de Pequim, ambos condenados por espionagem pelo governo francês nos anos 80. No filme, René Gallimard (Jeremy Irons) apaixona-se pela cantora Song Liling (John Lone), alheio ao facto de que, na tradicional ópera chinesa, todos os papéis serem interpretados por homens. Descoberto o logro (que incluiu o «nascimento» de uma criança de olhos rasgados e cabelos loiros), Gallimard é preso por crimes de espionagem e torna-se alvo de chacota em toda a França. Na prisão, recupera por instantes a mulher que ama, encenando a sua trágica transformação em Madame Butterfly, momentos antes de tirar a própria vida com um fragmento de espelho. Em Mr. Butterfly, o catalisador da metamorfose não é a perda da mulher amada, mas sim a sua descoberta. Aprisionado na sua indefinição, Christian Sands encontra em Patricia Kane a razão para se transformar naquilo que, potencialmente, já seria. O nome do protagonista foi tomado de empréstimo da faixa Christiansands de Tricky, do seu álbum de 1996, Pre-Millenium Tension. A epígrafe foi retirada de I Would for You, do álbum Hesitation Marks, dos Nine Inch Nails. A designação Gatherer Of Data remete para o álbum Desensitized dos Pitchshifter, lançado em 1993.Cadernos de Saint Paul apresenta um excerto do diário do escritor Tony Dornbusch e foi construído à volta da noção de partenogénese, ou seja, a reprodução assexuada ou nascimento virgem. De salientar que, a ser possível a sua ocorrência em seres humanos, o ser resultante seria sempre do sexo feminino e, tirando algumas alterações genéticas, muito parecido com a progenitora.

Would You? - Julian Kronenburg

Letra do primeiro single retirado de Resurrected, o primeiro álbum a solo de Julian Kronenburg, ex-vocalista dos Brides of Christ.



Would you be
Afraid of me
If I told you…?

Would you run
Away from me
If I told you…?

I cannot
Function in
This sea of dysfunctionality
 In a world
Where there’s a girl
Meant to be with me

Would you doubt
My sincerity
If I told you…?

Would you think
Ill of me
If I told you…?

I cannot
Function in
This sea of dysfunctionality
 In a world
Where there’s a girl
So far away from me

“I would rather
Be alone
For all eternity
I would rather
Be gone forever
Away from your
Monstrosity…” 

Numan Nature


Se tivesse de apontar alguém como o meu Personal Jesus, esse alguém seria o Gary Numan. O músico britânico, que tem tantos anos de carreira como eu de vida, foi e continua a ser conhecido como um one hit wonder, mercê do estrondoso sucesso global da canção Cars (um fenómeno da cultura popular que mereceu até uma referência num episódio do Family Guy e uma cover por parte dos Fear Factory com o próprio Gary Numan).
Pai espiritual dos Nine Inch Nails, Marilyn Manson e Fear Factory, entre muitos outros, Gary Numan atravessou um longo deserto nos anos 80. Chegado aos anos 90, deixou-se influenciar pela sua própria descendência e reinventou-se, permitindo-se contaminar pelas niilistas paisagens industriais e pós-industriais que ele próprio ajudou a desenhar.
Descobri-o verdadeiramente através do filme Dark City, de Alex Proyas, realizador de outros filmes tais como The Crow e I, Robot. A banda-sonora incluía o tema Dark do seu álbum Exile, e quando o ouvi não queria acreditar que aquele era o mesmo Gary Numan do tema Cars.
Comecei a segui-lo no velhinho MySpace  e a comprar a sua discografia com a avidez de um fanático, transformando-me então num numanoid. Uma crítica a Jagged resumia o conceito do álbum a duas palavras: Android Armaggedon. Daí até ao meu conceito de Android:Apocalypse foi um pequeno passo.
Se, antes dele, os Alice In Chains e os Nine Inch Nails tinham salvo a minha vida, foi Gary Numan que me apontou o caminho a seguir. Não é coincidência o próprio Numan ter ido buscar muita da sua inspiração a J.G. Ballard, Philip K. Dick e William S. Burroughs, autores que ajudaram a formar-me enquanto escritor, e que tenha chegado a samplar o filme Blade Runner, o meu filme favorito desde sempre.
Em 2017, Numan continua mais relevante do que nunca; Me I Disconnect From You, de 1979, parece profetizar o aparecimento do Facebook, e o enredo do  filme de animação Wall-E parece ter sido decalcado de uma das faixas do álbum de 1980, Telekon
Resta esperar que o mundo pós-apocalíptico descrito em Savage, o seu álbum mais recente, não se venha a revelar mais uma das suas profecias. 

Vargas


"— Havia uma seita russa cujos seguidores acreditavam que o pénis simbolizava a serpente e os seios o fruto proibido.
— Sim, e depois?
— Os homens amputavam o pénis e as mulheres os seios. Para se distanciarem do pecado original.
— As coisas que tu sabes…
— Tens alguma coisa que se beba? — perguntou ele, levantando-se da cama, arrastando os pés em direcção à cozinha.
— Água, leite…
— Com álcool...
— Sumo de laranja… — continuou ela, fingindo não ter ouvido.
— Vinho! — gritou John, abrindo a porta do frigorífico.
— Amanhã vou para Londres — disse Ingrid, a cara encostada à ombreira da porta da cozinha.
— Quanto tempo vais ficar lá?
— Uma semana.
— Eu podia ir contigo.
— É melhor não. Vou passar a maior parte do tempo a trabalhar e o pouco tempo que tiver livre vai ser preenchido com estudo intensivo. Tenho exames daqui a um mês.
— Não sei como vou sobreviver uma semana sem ti — disse John, abraçando-a.
— Tenho a certeza de que vais arranjar alguma coisa com que te entreteres.
John julgou detectar uma nota de ironia no modo como Ingrid disse aquilo.
— O que queres dizer com isso?
— Nada, não sei. Não tens nenhum livro para escrever?
— Não escrevo desde que te conheci, nem uma linha.
— Lamento imenso.
— Não, não lamentes. É sinal de que estou a conseguir escapar da minha cabeça.
Enfiou a mão no bolso do casaco e tirou um cigarro.
— Não devias fumar, John, pelo menos assim tanto. Também não te fazia mal nenhum deixares de beber. Não percebo por que o fazes…
— Odeio-me e quero morrer.
— Não digas isso nem a brincar.
— Vou tentar deixar de fumar e de beber, prometo-te.
— Não te quero obrigar a fazer nada que seja contra a tua vontade.
— Eu quero fazer isto, por ti, meu amor, quero ser melhor.
Ingrid sorriu tristemente e beijou-o na face, como a mãe de uma criança problemática."

Autores em leituras: Carla Ramalho


Uma crítica simpática ao meu 'O motor do caos e da destruição' por parte de Carla Ramalho, autora do romance 'E ficou a terra', também da Coolbooks.

 "À medida que as diversas narrativas desfilavam à frente dos meus olhos, revisitei o mundo caótico de George Miller, e do seu Mad Max; lembrei-me de David Fincher e dos seus Sete Pecados Mortais; e até fui buscar a velhinha série Balada de Hill Street, que devorava na companhia do meu pai."


http://www.coolbooks.pt/noticias/detalhe/?id=124442&langid=1

Nós Que não Somos Como os Outros


"nós que não somos como os outros,
somos como os outros
que não são como eles,
que não são como nós,
que não somos como eles
nem como ninguém"


in O Álbum Negro, Raymond Fernández

Uma Questão de Tempo


"uma questão de tempo,
é apenas isso, 
uma questão de tempo
até estarmos todos mortos,
atirados para valas comuns
como frigoríficos avariados
despejados num baldio nos arredores 
de uma cidade-cemitério;
vivemos no prelúdio de um apocalipse 
feito pelo homem
e para o homem"


in O Álbum Negro, Raymond Fernández

Urbis et Orbis - Coolboks


"Saint Paul é o centro do meu universo ficcional, uma cidade-Estado algures a meio caminho entre a Europa e as Américas (..) Situar histórias numa cidade fictícia é algo que já foi feito por vultos da literatura maiores do que eu, que sou ainda um mero vislumbre: Lovecraft tinha Arkham, Garcia Márquez Macondo e Faulkner o Condado de Yoknapatawpha."


'A Espada de Deus', António Bizarro

'O Motor do Caos e da Destruição', António Bizarro, Coolbooks



Uma palavra encontrada num livro antigo tem o potencial de dizimar a Humanidade, e duas facções distintas digladiam-se pela sua posse na cidade da indústria. 
As autoridades de Saint Paul entram em alerta total devido a uma ameaça vinda dos céus da cidade, e cabe ao inspector Lindberg travá-la. 
O mote «sexo, drogas e rock industrial» manifesta-se na forma de uma estranha doença que aflige Julian Kronenburg, vocalista da banda Brides of Christ. 
Numa Saint Paul futurista, o êxodo pendular casa-trabalho/trabalho-casa torna-se numa luta diária pela sobrevivência. 
A queda de um realizador de cinema no vazio arrasta consigo Felix e Melissa, os quais acabam por se unir na sua luta contra o medo e a solidão. 
Um escritor atravessa o mundo e os séculos, carregando um segredo terrível, e encontra a sua alma gémea em Saint Paul. 
A mesma tecnologia que permite repovoar a Terra após o Apocalipse Andróide serve para despoletar psicopatologias latentes, bem como o aparecimento de novos e terríveis crimes. 
Nas palavras do escritor G.H. Ballantine, «o tempo é o motor do caos e da destruição», e em Saint Paul o passado e o futuro colidem, transformando-se mutuamente.

Acerca de 'O Motor do Caos e da Destruição'


    De acordo com o Talmude, a língua do homem é como a abelha: tem mel e tem ferrão. No Livro de Provérbios, 18 versículo 21, Salomão diz que a morte e a vida estão no poder da língua. Foram esses os pontos de partida para escrever A Espada de Deus
  Julian Kronenburg, além do nome que evoca o de David Cronenberg, foi baseado na figura do vocalista dos Alice In Chains, Layne Staley, cujo corpo foi descoberto a 19 de Abril de 2002, apontando-se a data da morte para o dia 5 desse mês. A formação musical de Julian foi muito semelhante à minha. O festival City Of Industry que é referido na história foi buscar o nome ao meu projecto de música electrónica, com o qual cheguei a editar cinco faixas na compilação Seek and Thistroy, da Thisco Records. No alinhamento desse festival, constam nomes de bandas inventadas por mim. 
    Androctonus é baseada num acontecimento real que ouvi narrado por um jornalista. Em Belgrado, os jipes da ONU andavam a ser alvo de ataques de snipers. O FBI foi chamado a investigar e descobriu o autor dos disparos.
    Crimes Futuros é a incursão numa Saint Paul pós-apocalíptica onde a clonagem de seres humanos adquire contornos sinistros. A caça de humanos, ou neste caso, Numanos, foi directamente inspirada pela faixa Down in The Park, dos Tubeway Army, banda que tinha como vocalista Gary Numan. 
    Réplica foi inspirada por várias histórias que versam sobre o tema do doppelgänger, nomeadamente, William Wilson de Edgar Allan Poe e O Duplo de Dostoiévski.
    A Solidão e o Medo das Alturas tem por base algo que aconteceu à irmã de uma amiga minha, um incidente em tudo semelhante ao que envolveu Melissa Baum e Mathias Volker. 
    Blasco passa-se num período anterior ao Apocalipse Andróide, um acontecimento catastrófico que levará a Humanidade perto da extinção. Os Incineradores, máquinas de extermínio e esterilização, são prenúncios do que está por vir. Neste conto, somos apresentados a G.H. Ballantine, uma discreta homenagem ao escritor britânico J. G. Ballard. 
    Escreveu Borges: “Desvario laborioso e empobrecedor é o de compor vastos livros (…) Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário.” O excerto do livro de G.H. Ballantine, que se apresenta em O Motor do Caos e da Destruição, começou por ser um conjunto de, à falta de termo melhor, poemas. Certa passagem de Anarquista Duval, dos Mão Morta, inspirou o título: «Dizem que semeio o caos e a destruição como o vento semeia as papoilas... Meu nome é Liberdade!»
    Commuters foi escrito em várias travessias de barco sobre o Tejo, do Barreiro para Lisboa e de Lisboa para o Barreiro, num tom hiperbólico e caricatural. 
    A Sombra do Viajante, uma alusão pouco subtil a O Viajante e a sua Sombra, de Friedrich Nietzsche, narra a história de Roman Petrescu, um vampiro-escritor, ao som de Bauhaus, Joy Division e Sisters Of Mercy. Miguel Torga queixava-se que os editores eram uns vampiros, preferindo as edições de autor. Neste caso, o editor torna-se presa dos autores.
    Génesis carece de muitas explicações. É a história da escrita de uma história, e nada mais.

ANTÓNIO BIZARRO


Songbook


Letras escritas por Julian Kronenburg para a sua demo, Kill Me Twice, lançada depois do fim dos Arctic Warfare e antes de ingressar como vocalista nos Brides of Christ.


Kill Me Twice

Shivering hands
reach for my throat
And I don´t mind
it’s all my fault

My whole existence
is made of this
Everything’s wrong
and pain is bliss


Slave Mode

In a established order
mind no longer functions
There is no thought
only implanted notions

Can’t say, if I’m asleep or awake
My voice, is just a background noise 

Thought control
becomes standard procedure
No emotions allowed
feelings don’t figure


Before the fall

You walked the skies
from time to time
The skies are gone
and with them the light

Now I see you, embracing shadows
in the heart of darkness 

You wondered why
dreams of life
After crumbling down
were doomed to die

Now I see you, fading quickly
in the land of sickness

Stars were shining
in the desert sky
In spite of grey shadows
clouding your eyes 

Now I see you, chasing demons
in the domains of madness

'O Longo Caminho de Regresso', António Bizarro, Coolbooks



http://www.coolbooks.pt/livraria/ficha/o-longo-caminho-de-regresso?id=16575168

Tony Dornbusch é um escritor que parte de Saint Paul em busca de respostas.
Ian Fallon é um assassino inato no corredor da morte.
Michael Patton é um polícia em confronto com o seu passado e com o futuro da Humanidade.
Johanna é uma adolescente cujo corpo se torna um campo de batalha entre Deus e o Diabo.
Estas são algumas das personagens que vivem e morrem na cidade de Saint Paul, à sombra do Instituto MacLaren e nas margens do rio Arion.

Acerca de 'O Longo Caminho de Regresso'

O conto que dá o nome a este livro tomou de empréstimo parte da letra da canção Evil, dos Interpol. Nele, acompanhamos o escritor Tony Dornbusch na sua busca de respostas por parte do seu pai, cuja ausência determinou de forma insuspeita o rumo da sua existência.
     Em O Complexo de Siobhan, somos apresentados a Tony Dornbusch, o qual, não sendo um alter-ego de António Bizarro per se, é talvez uma projecção autobiográfica muito próxima da caricatura. Ao escritor de Saint Paul, é-lhe narrada a história de um assassino intra-uterino.
     N’As Luzes Negras da Cidade, o protagonista é confrontado com o seu passado e com o futuro da Humanidade em simultâneo. A inspiração surgiu do texto que se lhe segue, Akasha, e do artigo atribuído ao Dr. Mallory, Singularidade Tecnológica, que acabou incorporado no conto.
     Ivan, o Terrível era uma história dentro de outra história que acabou por se autonomizar. É um confronto entre o Bem e o Mal, em que o pequeno Ivan, qual David, derrota o seu Golias com o poder da sua jovem mente, inspirado por Sun Tzu e Maquiavel.  
     Estrela da Manhã narra a imersão de Tony Dornbusch no underground artístico de Saint Paul.  
     Faux Pas é um nano-conto inspirado em Conditions of My Parole, uma faixa dos Puscifer, o projecto paralelo do frontman dos Tool, Maynard James Keenan.  
     Johanna e os Demónios baseia-se numa situação real que ocorreu em Portugal, no ano de 1933, numa aldeia que ficou tristemente conhecida pelo epónimo sinistro de ‘Mataqueima’ (muito antes de mim, Bernardo Santareno baseou-se nos mesmo acontecimentos para escrever O Crime de Aldeia Velha, livro que daria origem ao filme homónimo.) 
     A Comédia Humana é baseada numa figura real que viveu no Barreiro nos anos oitenta e noventa, no auge do tráfico e do consumo de heroína. O indivíduo em questão era frequentemente tido como morto, ressurgindo sempre num estado ainda mais decadente do que antes.  
     Ruínas Futuras foi-me sugerido pela canção Die Befindlichkeit des Landes, dos Einsturzende Neubauten e, em especial, por The Dead Zone, de Stephen King, por via do filme homónimo de David Cronenberg, com a diferença de que, na minha história, o protagonista não pode fazer nada para evitar a extinção da Humanidade.  
     Ergástulo toma o nome de uma faixa do Álbum Negro, dos Bizarra Locomotiva, e foi parcialmente inspirado pelas cenas finais do filme argentino El Secreto de Sus Ojos de Juan José Campanella, por sua vez, baseado no livro de Eduardo Sacheri.
     O título Visões/Ficções fui buscá-lo à canção de António Variações, Visões-Ficções (Nostradamus), que acabou por influenciar retroactivamente o conto anterior. O artigo assinado por Tony Dornbusch ilustra algumas das razões pelas quais escrevo ficção.

ANTÓNIO BIZARRO

Chaos Within



Deep inside
Falling apart
Stone cold heart
Bleeds open wide

Higher decay
Sick devotion
Skin deep emotion
Starting to fade

Chaos built
Inner sickness
Pain and weakness
Molded in guilt





Giver Of Death



Drink the blood of Christ
Do not taste the alcohol
Kill the spirit of the body
And breed like an animal

I am the one,
The one that makes you fall
I am the end, 
The end of it all

I’ll show you pain and misery
And call it beautiful
First I burn your flesh
Then I take your soul

I am the one,
The one that makes you crawl
I am the death, 
The death of it all




Tony Dornbusch - 'Novos Fragmentos' (Edições Redshift)

Disponível para download gratuito:

https://drive.google.com/file/d/0BwLi3wm4X6oMSGJpZW93WHhLU3M/view?usp=sharing



























INTRODUÇÃO

"Os Novos Fragmentos que agora se reúnem neste sétimo volume da colecção Biblioteca de Saint Paul foram encontrados por Chloe Muller, a mulher que partilhou a vida com Tony Dornbusch quando este estava a dar os seus primeiros passos na escrita, numa caixa arrumada no canto de um sótão juntamente com alguns dos seus pertences. Uma vez mais, aqui se condensam os temas e as ideias dornbuschianas que, mais tarde, o autor desenvolveria em muitas das suas obras, como, por exemplo, no livro Ruínas Futuras, nomeadamente, a obsessão romântica, a anti-religiosidade, a auto-depreciação megalómana, a profecia apocalíptica e um gosto atávico pelo aforismo de que já tínhamos dado conta no terceiro volume desta colecção, Fragmentos. Agora como então, não houve uma preocupação cronológica ou temática na selecção, no sentido em que se pretende que, tanto admiradores acérrimos como leitores iniciantes da obra de Dornbusch, façam uma digressão pelo seu universo rica em desvios e sobressaltos, ao invés de uma incursão espartilhada pelo academismo puro. Na primeira parte, (Novos Fragmentos), encontramos textos curtos, frases e aforismos provenientes de blocos de notas e folhas avulsas, enquanto na segunda parte, (Conto), é trazida à luz do dia, pela primeira vez, uma história que Dornbusch preferiu não dar à estampa, decerto dactilografada na sua velha máquina de escrever Hermes Baby: O Intruso, uma história que deve, é certo, muito a Chuck Palahniuk e ao seu Fight Club, mas onde se vislumbra já o estilo que Dornbusch refinaria em livros como Viagem Sentimental ao Sol e Psicotrópico de Câncer."    


Clarice MacLaren



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Controlled Bleeding

Texto extraído do livro Novos Fragmentos – Tony Dornbusch, o sétimo volume da Biblioteca de Saint Paul, uma colecção coordenada por Clarice MacLaren para as Edições Redshift.

"O portaló assenta pesadamente sobre o cais de desembarque e as bestas proletárias, previamente condicionadas nesse sentido, dirigem-se para as suas respectivas câmaras de hemorragia controlada. Os supervisores encarregam-se de lhes introduzir no dorso as agulhas de vinte e cinco centímetros. As câmaras estão todas ligadas em rede, o sangue escorre todo na mesma direcção. A máquina suga o sangue com avidez precisa e mecânica. É insaciável, e nunca estará satisfeita. Os corpos enrugados como ameixas secas vão sendo amontoados uns em cima dos outros para posterior eliminação física. Nenhuma besta é incinerada sem antes parte do seu material genético ter sido salvaguardado para a futura produção de novas bestas. A máquina tem de ser perpetuamente alimentada, pelo que o número de bestas dadoras é sempre mantido e, quando possível, aumentado. A máquina nunca morre, e as bestas nunca chegam a velhas."

Kindergarten

     
     Naquele tempo, o tempo era maior, demorava mais a passar. Não havia a urgência da banalidade, apenas a gravidade severa das brincadeiras.

Excerto do conto 'Ergástulo'


     David Larsen acordou numa cela de prisão, sem memória de ter sido para lá escoltado por polícias nem de ser sentenciado por um juiz num tribunal. Reconheceu a roupa que trazia vestida como sua, apenas deu por falta do cinto e dos atacadores das botas. A cela tinha quatro metros por dois, e estava equipada com um catre, no qual tinha acordado, uma sanita, um lavatório, uma pequena secretária e uma cadeira. Não havia janelas. Pelo tipo de alvenaria usada na construção, deduziu que a prisão seria uma adega reconvertida. Através das grades da porta, viu que o resto da divisão se estendia por mais dez metros, culminando numa escadaria de madeira que dava acesso a uma porta de aspecto robusto, também ela de madeira. Eram dez e meia da manhã. Fora-lhe permitido ficar com o relógio. Revistou-se a si próprio e expôs o conteúdo dos bolsos sobre a secretária. A carteira, contendo todos os documentos, cartões de crédito e dinheiro, um maço de tabaco com dezasseis cigarros, um isqueiro, as chaves de casa, um pacote de lenços de papel e outro de pastilhas, e duas lamelas de comprimidos, uma de anti-depressivos, a outra de ansiolíticos. Acendeu um cigarro, as mãos a tremerem-lhe, soprando o fumo para cima, na direcção da lâmpada que pendia do tecto, derramando uma luz mortiça. Andou às voltas pela divisão, deitando a cinza na sanita, e quando acabou de fumar, puxou o autoclismo. Agarrou-se às grades, testando a sua resistência com abanões cada vez mais enérgicos. Gritou que o tirassem dali, sem ter a certeza de que seria ouvido por alguém ou que o seu pedido desesperado fosse atendido. Continuou a gritar até ficar rouco e a voz morrer-lhe na garganta, estrangulada pelo choro e pelo cansaço. Derrotado e esgotado, encostou-se às grades e deixou-se deslizar até ficar sentado, os braços apoiados nos joelhos e a cabeça tombada para a frente. Adormeceu, teve um pesadelo familiar, recorrente, que lhe fazia companhia durante todas as noites nos últimos dois anos.

Excerto do conto 'Johanna e os Demónios'

     Eram pessoas madrugadoras, como as do campo costumam ser. Por volta das dez da noite, a casa estava silenciosa e a aldeia adormecida. Os gatos andavam pelos telhados, e é verdade que à noite todos são pardos, pequenas sombras fugidias e ágeis, máquinas de busca e destruição. O pai de Johanna foi acordado pela voz da filha, que lhe lembrava a voz da falecida, e pensou que tivesse sido um sonho. Deixou-se ficar no escuro a olhar para o nada, à espera que o sono voltasse. Uma vez mais, ouviu a voz de Johanna, e então levantou-se. Atravessou o corredor e dirigiu-se para o quarto da filha. Nenhum dos irmãos parecia ter acordado com o barulho. Pela porta entreaberta, ouviu a filha a falar. 
     – Nach mir die Flut, nach mir die Glute… Die Maschinen werden steigen… 
     Empurrou a porta e viu-a sentada na cama. A pouca luz que entrava pela janela permitiu-lhe ver que a filha tinha uma mancha escura na camisa de noite, na parte que lhe cobria a entrada do corpo. Johanna olhou para lá do pai, como se este fosse transparente. 
     – Ich blute – murmurou tristemente. 
     Ele sabia o que era aquilo. Significava que a filha era agora uma mulher e que, em breve, lhe poderia dar um neto. O que ele não compreendia eram as suas palavras. Sentiu um pavor atroz, pavor de que Johanna fosse a nova morada do demo. Encostou a porta cuidadosamente e vestiu-se.

Tony Dornbusch - 'Fragmentos' (Edições Redshift)

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INTRODUÇÃO

"Os Fragmentos que agora se reúnem neste terceiro volume da colecção Biblioteca de Saint Paul foram seleccionados a partir do espólio deixado por Tony Dornbusch (nom de plume de Anton Weide), após a sua morte. Provêm de blocos de notas dispersos, folhas avulsas, apontamentos nas costas de sobrescritos e programas de teatro, bem como de cartas dirigidas a amigos e correspondentes. Aqui se condensam os temas e as ideias dornbuschianas que, mais tarde, o autor desenvolveria em muitas das suas obras, como, por exemplo, no livro Ruínas Futuras, nomeadamente, a obsessão romântica, a anti-religiosidade, a auto-depreciação megalómana, a profecia apocalíptica e um gosto atávico pelo aforismo. Não houve uma preocupação cronológica ou temática na selecção, no sentido em que se pretende que, tanto admiradores acérrimos como leitores iniciantes da obra de Dornbusch, façam uma digressão pelo seu universo rica em desvios e sobressaltos, ao invés de uma incursão espartilhada pelo academismo puro. De salientar, alguns dos textos mais tardios em que Dornbusch se diverte a auto-parodiar-se e a exibir flagrantemente os tiques e trejeitos que os seus detractores não se cansaram de lhe apontar e censurar. Estamos certos de que as palavras de Tony Dornbusch continuarão a ecoar, não como «vestígios de uma decadente mitologia urbana», mas como das mais lúcidas e coerentes do nosso tempo."

Clarice MacLaren


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