Excerto do conto 'Ergástulo'


     David Larsen acordou numa cela de prisão, sem memória de ter sido para lá escoltado por polícias nem de ser sentenciado por um juiz num tribunal. Reconheceu a roupa que trazia vestida como sua, apenas deu por falta do cinto e dos atacadores das botas. A cela tinha quatro metros por dois, e estava equipada com um catre, no qual tinha acordado, uma sanita, um lavatório, uma pequena secretária e uma cadeira. Não havia janelas. Pelo tipo de alvenaria usada na construção, deduziu que a prisão seria uma adega reconvertida. Através das grades da porta, viu que o resto da divisão se estendia por mais dez metros, culminando numa escadaria de madeira que dava acesso a uma porta de aspecto robusto, também ela de madeira. Eram dez e meia da manhã. Fora-lhe permitido ficar com o relógio. Revistou-se a si próprio e expôs o conteúdo dos bolsos sobre a secretária. A carteira, contendo todos os documentos, cartões de crédito e dinheiro, um maço de tabaco com dezasseis cigarros, um isqueiro, as chaves de casa, um pacote de lenços de papel e outro de pastilhas, e duas lamelas de comprimidos, uma de anti-depressivos, a outra de ansiolíticos. Acendeu um cigarro, as mãos a tremerem-lhe, soprando o fumo para cima, na direcção da lâmpada que pendia do tecto, derramando uma luz mortiça. Andou às voltas pela divisão, deitando a cinza na sanita, e quando acabou de fumar, puxou o autoclismo. Agarrou-se às grades, testando a sua resistência com abanões cada vez mais enérgicos. Gritou que o tirassem dali, sem ter a certeza de que seria ouvido por alguém ou que o seu pedido desesperado fosse atendido. Continuou a gritar até ficar rouco e a voz morrer-lhe na garganta, estrangulada pelo choro e pelo cansaço. Derrotado e esgotado, encostou-se às grades e deixou-se deslizar até ficar sentado, os braços apoiados nos joelhos e a cabeça tombada para a frente. Adormeceu, teve um pesadelo familiar, recorrente, que lhe fazia companhia durante todas as noites nos últimos dois anos.

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